A construção da vida, no momento, está muito mais no poder de fatos que de convicções. – Walter Benjamin
Repentinamente rasgou o jornal, furioso. Tudo parecia normal até então. Pegou livros e os atirou pela janela. Jogou um vaso na televisão partindo-a em pedaços. A mulher e os filhos não o reconheciam. Nada o parava. Atirou toda a roupa janela abaixo, quarto andar. Gente vinha de todos os lados, alguns por mera curiosidade, outros para carregar o que encontravam pelo caminho. “Esta merda! Esta merda desta comida de sempre!”. Espargiu condimentos, sal, açúcar, abriu pacotes e foi espalhando tudo pela cozinha. Quebrou garrafas de suas melhores bebidas. A família não tentava impedi-lo, abraçados uns aos outros, o pai havia enlouquecido? Quebrou todas as janelas do apartamento, precisava respirar, de luz, de espaço – a mente não lhe escaparia. De repente, estancou exausto, arfando, suado. Prostrou-se. A filha caçula tomou coragem e se aproximou aos passinhos, colocando as mãos sobre seus ombros, “Papai? Você está zangado?”. Ele a pegou no colo depois de longos minutos de confusão e amargura, “é o tédio, o tédio! É simplesmente impossível se livrar dele. Que tudo vá para o diabo!” Olhou a filha uma última vez e saiu rua afora para nunca mais ser visto. Fora ferido. E era fatal. Jamais voltaria a sentir qualquer coisa, a ferida sangrando, aberta, marcando o chão por onde ele fosse, cada dia mais frio, seco, duro, até perder completamente o calor vital e virar mera estátua decorativa, como há tantas por encontrar por aí, de aspecto sempre triste e olhar vazio, medonhamente enojadas.
Por Alexandre Magno da Silva

Excelente e forte este teu texto!
Vindas de ti são palavras de consolo, Amélia. Bjos pra ti =)