A dúvida é o privilégio de quem viveu muito. - José Saramago
Não cria na vida após a morte. Quando morreu se viu diante de Deus a lhe perguntar, “O que faço, Eu, agora, contigo?”, no que respondeu ao Senhor, “Tu que sabes, já que eu sou invenção tua!”. “Mas me criaste um problema, José. Fostes um homem bom em vida e Eu não posso te mandar para o Inferno”. “Ora, Senhor Deus, com todo o devido respeito, podes me mandar de volta para a poltrona em que eu estava a ler, porque era das leituras mais agradáveis.” Deus o olhou contrariado, “José, tu és mortal e tua alma tem caminho próprio a fazer”. “Senhor Deus, ainda com todo o respeito, esta alma, embora cansada, realmente carece de muito pouco para se entreter, um pouco de pão e de vinho, o amor de uma mulher e os livros por ler e escrever. Porque não me mandas de volta e eu, por ter sido apresentado a você, poderei retornar em outra ocasião, com toda a pompa que é exigida a tais circunstâncias?”. “Não devias zombar do teu criador, criatura!”. “Senhor Deus, francamente, eu, garotinho largado no mundo, me fiz sozinho e aprendi a ler e a escrever, quase ao mesmo tempo em que aprendia a caminhar. Tu, com toda a certeza, tivestes afazeres de mais elevada nobreza. Depois, quanto ao homem que me fiz, foi tudo obra do acaso e do meu modo de fazer as coisas como faço.” “Se tu consideras que o acaso não me cabe num universo criado por mim, o que devo Eu pensar de ti, senão que és um tolo e que ainda não me levas a sério?” “Senhor Deus, tudo o que Lhe peço é paciência para….” E zupt. Não tardou para que José estivesse diante do Diabo que ao vê-lo não encontrou expressão mais literal, “Ora, ora, vejam só! Para quem não cria no Céu nem no Inferno, você comprou um bilhete deveras especial, José!”. Mas José só queria voltar para casa e pensava teimosamente com os seus botões, “lá vamos nós, outra vez, ó pá!”, “Senhor Mefisto, vamos aos negócios! Finalmente um bom e experiente negociador!”. E já ía novamente perdendo a paciência.
Por Alexandre Magno da Silva
