A lucidez é o único vício que torna o homem livre: livre em um deserto. – E. M. Cioran.

Sentado em sua escrivaninha, meditabundo, o filósofo contempla o mundo das idéias como uma criança manipula um cubo mágico, procurando a combinação perfeita que deverá colocar todas as coisas no lugar, com suas cores e formas. Você pode observá-lo facilmente, embora ele não o veja, absorto em problemas de difícil resolução. Sabe que há perguntas sem respostas, mas a tentação de fazê-las o comove e dá movimento aos sabores e dissabores da razão. Vendo-o onde ele está você diria que se trata de um homem como eu ou você, mas, em verdade, o seu caso é um pouco mais complicado: o filósofo é uma espécie de homem que vive conforme diretrizes claras a respeito de uma suposta ordem que governa a realidade e o real, o verdadeiro e o falso, o certo e o errado, o perfeito e o imperfeito, a morte e a vida, a busca da verdade e a descoberta da verdade. Por isso ele se encontra onde está, faz horas, ocupado com o mapeamento de um complexo jogo de discernimentos, como um enxadrista que enfrenta um oponente que existe apenas em seus sonhos e fantasias. Ele pensa conhecer as jogadas, mas nada mais faz do que movimentar as peças e manter o perfeito funcionamento do jogo, que nunca para, que não pode parar, que jamais há de parar. O filósofo luta pela vida, contra a morte da razão, fazendo do próprio instrumento o meio e o fim. Não pode evitar, preso do modo como está em sua escrivaninha, as pernas recolhidas, o relógio martelando o desenvolvimento do pensamento com a exaustão, procurando saída para questões que criou para si próprio e que sabe de antemão que jamais serão respondidas, não por ele, nem por outro homem, não nesta vida, mesmo a mais sábia. Mas continua, simplesmente. Vai encontrar outras metáforas e desdizer o já dito ou reascender a idéia secular com uma outra expressividade, mas continuará o mesmo homem feito todos os demais, ou a beleza de um sistema pode superar a beleza da falta de mistérios? Vai contemplar a solidão de Kant e a de Spinoza, a solidão de Voltaire e a de Nietzsche e fará anotações cuidadosas em seus estudos e tudo o que descobrir valerá tanto quanto os tesouros imaginados por um gênio brincalhão. O filósofo medita, o rosto cerrado, o corpo dobrado sobre si, encantado com o puro exercício da ingenuidade e da beleza da razão. Chegará o momento em que ele há de despertar e assim que o fizer há de voltar para a mesma vida, aquecendo a água para o café, fatiando os pães e se perguntando quanto tempo ainda haverá de vida para espiar as mudanças das estações pela janela dos fundos da casa, de todas as questões imagináveis, a mais fundamental.

Por Alexandre Magno da Silva