No final de toda liberdade, há uma sentença. – Albert Camus

Abaixado, apoiando-se com dificuldade sobre o joelho com umas das mãos, abriu a caixa de velhos pertences e se deparou com as coisas da juventude. Os joelhos doíam. Cada objeto uma memória revolvida. Segurou um livro amarelecido pela idade e de dentro dele caiu uma fotografia. Não teve coragem de tocá-la. Nela uma jovem sorria e tentava se esconder por detrás de uma árvore. Ficou olhando para o chão sem saber o que fazer até tocar a imagem com dois dedos, naquele rosto. Sentou-se. A vida voltava inteirinha, página atrás da outra. Pegou a fotografia com as duas mãos e a trouxe para bem perto. Lembrava daquele dia como se fora o anterior, apesar das décadas. Perdera a mulher fazia alguns anos, aprendera a amá-la e tiveram filhos e fizeram escolhas e riram e se aborreceram. Mas jamais esquecera do amor que ficara para trás, atrás do coração, bem escondido até mesmo de si mesmo. A outra. De repente aquela fotografia despertava a dor e a alegria, tudo junto, e confundia suas emoções naquele instante. O que faria da vida ainda? O que teria por realizar? O que fez da vida, afinal? Atravessou a casa com a fotografia nas mãos a procura da lista telefônica. Procurou por seu nome e o encontrou com ansiedades de alegria. Ficou sentado na mesa da cozinha, faria uma loucura? Teria coragem suficiente? Pegou o telefone e chamou por ela. Do outro lado da linha, uma senhora atendeu. Ele disse apenas uma única palavra: “Doralice?”, e ouvi-lo pronunciando aquele nome foi como recuperar a vida. A resposta veio como um soco no estômago: “Dorinha infelizmente faleceu na semana passada. Quem é?”. Ele ficou mudo. Em toda a vida que vivera não encontrara até então mudez mais profunda. Por uma semana a perdera. Por uma semana a falta de sorte de toda uma vida zombava ainda. Por uma semana, apenas, e teria ouvido uma última vez a voz dela. Talvez se tratasse disso, apenas ouvi-la uma última vez, o prazer da voz como um prazer antigo, descoberto apenas para si e jamais revelado. “É um velho amigo. Ela estava bem?”. “Mamãe morreu dormindo. Só reclamava da solidão e da falta de vontade para fazer as coisas. Talvez tenha desistido. Seguiu um sonho enquanto dormia e decidiu não voltar mais”. Ele olhava pela janela. Entrara num pesadelo e continuaria vivo ainda por muitos anos – a saudade dolorosa do futuro não vivido. Ela morta no sonho enquanto ele vivo no pesadelo. Segurava o rosto com as mãos, não teria o direito de chorar por ambos. Nem a fotografia sobrara, amassada sem o perceber no pungente estertor.

Por Alexandre Magno da Silva