Só podemos viver no entreaberto, exatamente sobre a linha hermética de partilha da sombra e da luz. – René Char

“Porque você não some?”, a irmã gritava, monótona. O mundo inevitável, mesmo que você vá se esconder na sombra. Ás vezes ele aparecia diante de alguém que não queria sua presença. Era como uma criança que não foi chamada e que fica à porta observando. Saía da sombra e parava sob a luz, curiosidade das mais puras. Desta vez fora a irmã mais velha. “Porque você não some para sempre, sempre?” A maldade vivia naquela repetição da palavra. Doía tanto que a pedra chegava no fundo do poço e fazia um som inconfundível. Ele ficou ausente naquele som, ouvia-o se desdobrar em sensações pequeninas que arrastavam todo o interior da alma, soterrando tudo com uma lama espessa de tristeza. “Some daqui, porra!” Não saía do lugar, não saberia para onde ir. “Morre, então, desgraçado, morre. Morre de uma vez, seu merda! Morre para sempre, sempre!”. Ficou deitado onde caiu. O braço doendo. Custou a entender que poderia se erguer, então ficou. Ela o deixava com as suas coisas. E o deixou, que se resolvesse. Psiquiatras, psicólogos, familiares, assistentes sociais, padres. Todos faziam o que podiam, segundo o que se quiser pensar. A sua cabeça, só acessível no por dentro – aliás, como a de toda a gente – , era coisa sua, e quase nada revelava no por fora, a expressão trancafiada. O que não quer dizer que não tinha emoções. Estava cansado de sofrer por uma condição pela qual não era responsável e que ele próprio, por mais que quisesse, jamais iria mudar. Para surpresa da irmã ele reapareceu na porta do quarto. A cabeça sangrava e o sangue escorria pelo braço esquerdo caindo no velho carpete. Continuou olhando para ela, impassível. “Eu odeio você”, finalmente ela disse, “eu queria que você não existisse”. O olhar dele perdido no tempo, tempo feito de pedaços sem ligação nenhuma. “Mamãe deveria tê-lo matado”. Entrou no quarto da irmã e rasgou toda a sua roupa, em meio aos arranhões e mordidas ferozes, ela não pode escapar. Deixou-a nua e desamparada. Ficou olhando-a com um riso infantil como quem sabe que fez algo importante que é só seu. Era como a via, era como sempre a viu. Empurrou a porta dos fundos da casa e foi se sentar na calçada para brincar com um dos seus bonecos de madeira e arame que representavam todas as pessoas que mais amava. Tomou o cuidado de quebrar em pedacinhos o boneco da irmã que jazia em um canto do quintal, enterrado como um velho osso esquecido por um cachorro. Nunca mais olhou para a irmã, que o viu envelhecer com os olhos sempre fixos em outro lugar cujo significado e importância seriam sempre e tão somente dele.

Por Alexandre Magno da Silva