Somente as coisas tocadas /pelo amor das outras / têm voz.- Fiama Brandão

Primeiro os botões vermelhos, um em cada casa, cada casa envolvendo o tecido no seu corpo esguio. A saia subiu com ambas as mãos numa combinação de acertos e ajustes. Sentia prazer ao vesti-la e a deixou cair de propósito apenas para repetir toda a operação. A porta fechada aberta com leve movimento para encontrar a filha pequena já acordada. Os dedos macios nos cabelos alourados e o sorriso. “Vamos procurar a sua caneca, garotinha?” O leite derramado até a metade, “beba tudo, filha!” As mãos novamente deslizando afetuosamente, agora os estreitos ombros encarangados do frescor de quem acabou de acordar. “Ponha sua blusinha, a verde-claro. Quer ajuda?” A filha estende os braços para cima e com cuidado, uma mão após a outra, a mãe vai vestindo o pequenino corpo. “Vamos embora?”, ela pergunta à filha. A casa fechada, vão caminhando pela rua logo à frente. Com um aceno Elisabete dá bom dia aos vizinhos, Sr. e Sra. Gerhaus. Gostava do casal, sempre contando histórias divertidas com um senso de humor jovial e admirável. Elisabete é mãe solteira, ao ver o belo filho do Sr. e da Sra. Gerhaus, passou levemente os dedos juntando os cabelos por detrás das orelhas e fez um meneio com a cabeça com um sorriso. O jovem homem respondeu com um bom dia sorridente e um “Olá, Filipa” para a garotinha, que prontamente retribuiu. Caminharam alguns quarteirões até a escola da menina, a mão de Elisabete sempre suavemente colocada sob a guarda das costas da filha, ora a guiando, ora sendo por ela guiada, e ao dobrarem a esquina do colégio se abaixou para abraçá-la, apertando-a para si com o habitual prazer. “Comporte-se, está bem?”, disse para ela, e fez um carinho em seu rosto como voto de confiança, amor e apoio. Elisabete seguiu seu caminho até o trabalho roçando com o peito da mão as flores baixas da alameda, ora abrindo os dedos levemente na tentativa de agarrá-las, soltando-as em seguida, como numa brincadeira em que ninguém ganha e ninguém perde. Gostava de tocar em tudo, não pelo aborrecido hábito da bisbilhotice mas, por que, desde muito menina, descobrira no tato o prazer mais permanente ante as melhores qualidades das coisas. A sua memória era táctil, e assim crescera com a recordação da sensação da barba embranquecida do pai no seu rosto e em suas mãos, e do antigo namorado beijando suas mãos, pedindo para ela ficar, e da descoberta da carícia mais íntima, solitária, e da textura de certos tecidos que sua mãe cortava para lhe fazer vestidos, e do calor do corpo de Filipa quando a pegou no colo pela primeira vez, recém-nascida, e dos sons que emanam das cordas do violão que ela dedilhava para a filha cantando canções do tempo em que ela também ainda era uma menina. Elisabete era táctil como os cegos, dando pouca importância às coisas que via, o importante era o modo como ela poderia segurar o mundo por um momento, em suas mãos, apenas para deixá-lo escapar por entre os dedos, como quem segura uma ave em pleno vôo para soltá-la em seguida, para vôos mais altos. Assim era a sua memória. Ao chegar ao local de trabalho tateou as velhas escadarias com as falhas na madeira e os relevos dos azulejos, um prazer que tinha consigo no seu modo de lidar com tudo o que era familiar. O dia de Elisabete apenas começava, e ela tinha o mundo inteiro em suas mãos. Táctil, sem jamais usar luvas.

Por Alexandre Magno da Silva