Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira.- Tolstoi
Entrou no quarto e apagou a luz. Ficou ouvindo a discussão de ambos. Não queria passar por aquilo mais uma vez, não queria saber de nada, ligou o aparelho de som o máximo que pode. Gritaram para abaixar. Mudou de idéia, preocupou-se, não sabia o que acontecia, resolveu desligar. Ouviu os pais gritando um com o outro tão nitidamente que parecia coisa de cinema, como nestes sistemas de áudio que ocupam toda a sala e colocam você no meio de tudo. Mudou de idéia novamente, se sentia confusa e exausta. Ela tinha se trancado no quarto para não ouvir e nem ver nada, mas mesmo assim, estava no meio daquilo tudo, como espectadora. Ouvia as trocas de acusação, a raiva de ambos, as frustrações, tudo jogado na cara um do outro com satisfação e renúncia de reconciliação. Pelo visto, há tempos não pensavam mais nela. Ela que estava sempre no meio daquelas brigas, não importava. Como se sentia, não importava. Como chegara em casa, não importava. O que pensava, não importava. Importante era o jogo duro da insatisfação. Seus pais não lhe davam trégua, apesar dela ser uma pacifista nata. Todos os dias era a mesma coisa, por semanas aqueles dois brigavam e se perseguiam feito cão e gato, a razão já não importava mais. Colocou a cabeça de baixo dos travesseiros e como se sentia cansada, dormiu. Acordou meia hora depois com o barulho de coisas sendo quebradas e correu do quarto para a sala a tempo de encontrar ambos no chão. Pegou a mochila e saiu correndo para longe daquilo, o mais rápido que pode, o mais longe possível. Passou semanas sem mandar notícias. Os pais juntaram força e fizeram uma pequena trégua para procurá-la, mas não a acharam. Foi para outra cidade, e mais outra, sempre de carona. Não queria mais voltar, não podia, sentia falta de casa, não tinha lar possível, não naquele lugar, não junto dos seus pais. Quando ligou para casa para dizer que estava bem não conseguiu falar, desligou. Sentia-se desanimada, mas prosseguiu. Só parou depois de atravessar quatro estados, talvez a segurança, afinal. Sozinha lá, sozinha cá. Arrumou emprego depois de alguma dificuldade, dormiu em albergues, cortou o cabelo bem curtinho e quando conheceu pessoas que lhe pareciam de confiança, arrumou um lugar para morar. Não tinha notícias dos pais, eles não recebiam dela. O tempo passou rapidamente, como sempre faz, e ela encontrou um amor e teve o seu primeiro bebê. Foi com muito cuidado e atenção que o jovem marido a convenceu a visitar os pais pela primeira vez desde que tinha saído de casa. Pegaram a criança e saíram de manhã bem cedo, estavam felizes juntos, ela preocupada e ansiosa. Depois de muita estrada, avistou o pequeno portão e a casa amarela. Da calçada ouviu os gritos do pai e da mãe. Aquilo não acabaria nunca. Era a forma de ambos conviverem. Não tinham como se separar um do outro, os anos passados juntos criara aquela monstruosidade de relação. Deixou um bilhete na caixa de correio com duas palavras, “amei vocês”. Nunca mais voltou. Teve uma vida de diálogo com o marido, e ambos criaram a filha da mesma forma. A vida evoluiu para o remanso do entendimento. Eles se amavam com cuidado afetivo. Foram criativos no amor, nas dificuldades, e nas perdas. Foram pacientes na ansiedade e no cansaço. A filha perguntou dos avós uma ou duas vezes, mas não quis ficar longe da mãe para ir vê-los, a mãe não a proibira, só disse que não iria junto, e tentando acolher os sentimentos da mãe, os esqueceu sem os conhecer. Seus pais morreram um do lado do outro, de velhos e de solidão comum. Nem vizinhos tinham mais. Fazia anos.
Por Alexandre Magno da Silva

Caro Alexandre Magno, acesso regularmente teu excelente site Palavra Aguda. No entanto, gostaria de saber como faço para acessar as categorias? Já fiz isso um vez, mas agora não estou mais conseguindo. Parabéns pelos textos. Forte abraço. Vladimir Araújo. Fortaleza.
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