A vida do homem é uma série de infâncias. - Machado de Assis

Choveu o dia todo, torrencialmente. Da janela o menino espiava a rua. Espiava a rua e olhava para o relógio. Quase final de tarde, o pai chegaria com as sacolas. Um mistério o que viria dentro das sacolas. Valia sempre a pena esperar: um biscoito? Um pacotinho de amendoim? Uma geléia! Mas o pai o preocupava mais desta vez. Já imaginava o estado dos sapatos e a lama se acumulando na barra da calça, e podia até ver a mãe sentada na escadinha esfregando aquela sujeira toda com os olhos mais claros e felizes que pode haver no mundo. O pai apareceu com os óculos molhados. Tinha dificuldade para ver e com embaraço desenrolou o arame que fechava o pequeno portãozinho de madeira. Num esforço desajeitado a sacola rebentou, vindo ao chão as compras pequenas da vida que é grandiosa. O menino saltou a janela de calção, sem camisa e completamente descalço. Abraçou o pai com força suficiente para desequilibrá-lo e já levantando da lama o pai deu-lhe um tapa no rosto, impulsivo e irreparável. Na sua vida de menino havia aprendido a arte de desviar a atenção. Ficou juntando as coisas do chão abraçando tudo e quando o pai voltou da casa com uma caixa vazia, o menino já tinha tudo consigo. Só restou jogar tudo para dentro da caixa e olhar com alegria para o rosto cansado do seu velho pai. No meio da lama ficou esquecido o pequeno chocolate, o mais barato. A mãe o mandou dar a volta na casa para se limpar. Fungando muito e enrolado em uma toalha ele apenas olhava para o pai porque ele tinha voltado para casa, o que era muito bom. E apesar de não ter encontrado absolutamente nada para si próprio, ajudou a mãe a guardar as pequenas posses, o que fazia com gosto, tomando cuidado para não derrubar nada, com as suas pequenas mãos de menino.

Por Alexandre Magno da Silva