Papagaios.

29 05 2009

Há ignorâncias de vários graus de conhecimento completamente ilusórios. É mesmo o aborrecimento perpétuo da sociedade, esse torneio de verbosidades impetuosas e inestancáveis, que têm o ar de saber as coisas porque delas falam, o ar de crer, de pensar, de amar, de procurar, enquanto tudo isso é apenas ruído vão, aparências, vaidades, palavrório. O pior é que, estando o amor-próprio atrás desse palavrório, essas ignorâncias frequentemente são ferozes de afirmação, tornam-se essas parolagens por opiniões, apresentam-se os preconceitos por princípios. Os papagaios consideram-se seres pensantes, as imitações dão-se como originais, os fantasmas de idéias entendem ser tratados como substâncias, e a polidez exige que entremos nessa convenção. É fastidioso.

Diário Íntimo, Amiel, 9 de junho de 1877 (Ediouro, pg. 324)





Nada.

29 05 2009

Eu não sou feliz, é desnecessário dizê-lo. Não sou resignado. Absolutamente não tenho paz. Alterno entre a indolência e o cuidado. O centro da minha calma é a desesperança. Não aceitei o que me magoa, não quero olhar o que me feriria. Oculto aos outros, e mesmo tento ignorar a raposa que me corrói as entranhas. Tenho a atitude do estóico, mas dele não tenho o orgulho, nem o vigor. No fundo da minha aparente serenidade aninha-se a tristeza incurável. Estou calmo diante da destruição, mas trago a morte na alma porque sinto esta vida falhada, e nada espero em compensação. Nada, nada, nada! Nada.

Diário Íntimo, Amiel, 9 de junho de 1877 (Ediouro, pg. 314)





Tempus fugit.

26 05 2009

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Tudo passa – sofrimento, dor, sangue, fome, peste. A espada também passará, mas as estrelas ainda permanecerão quando as sombras de nossa presença e de nossos feitos se tiverem desvanecido da Terra. Não há homem que não saiba disso. Por que então não voltamos nossos olhos para as estrelas? Por quê?

Mikhail Bulgakov, The White Guard (O exército branco)





Anjos e Demônios.

26 05 2009

Quando perguntaram a Santo Antônio no deserto como podia diferenciar entre anjos que vinham a ele humildemente e demônios que vinham sob rico disfarce, ele disse que podia perceber a diferença pelo modo como se sentia depois que tinham ido embora. Quando um anjo nos deixa, nos sentimos fortalecidos por sua presença; quando um demônio nos deixa, sentimos o terror.

Andrew Solomon, O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão. (Objetiva, pg. 16)





Ainda me movo.

21 05 2009

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Mas em meio a este terrível sofrimento, esta doença, este cansaço, este medo, ainda me movo: restam todavia a bênção do mundo natural e dos seres amados e tudo o que há para ler e ver.

Os Diários de Sylvia Plath, (Globo, pg. 264)





Inteligência solitária.

21 05 2009

Ninguém o conhecia a fundo. Certamente era o que ele queria, e assim foi. Talvez fosse tão solitário por causa da sua inteligência. Talvez fosse o contrário. De qualquer modo, inteligência e solidão sempre estiveram juntas. Uma fantástica inteligência solitária.

Robert Pirsig, Zen e a arte da manutenção de motocicletas: uma investigação sobre valores. (Paz e Terra, pg. 84)





Ponto de vista.

21 05 2009

Há coisas que a gente não nota porque são muito pequenas para serem vistas. Mas há outras que a gente não vê porque são imensas.

Robert Pirsig, Zen e a arte da manutenção de motocicletas: uma investigação sobre valores. (Paz e Terra, pg. 58)





Complexo de desorientação.

21 05 2009

Bússula

Alguém me dissera que sempre carregasse uma bússula. Censurei-me por ser o pior trapalhão e imbecil debaixo do sol. Uma bússula não teria me ajudado. Apenas me deixaria ainda mais confuso. Talvez Freud tivesse desvendado o meu mistério: eu sofria de uma espécie de complexo de desorientação. Podia ter algo a ver com minhas necessidades sexuais reprimidas?

Isaac B. Singer, Amor e Exílio: Memórias (L&PM, pg. 279)





Eterno retorno.

18 05 2009

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Saí para a sacada, e fiquei ali parado longo tempo, contemplando os astros.
Perguntei-lhes mudamente:
“O que me dizem de tudo isso?”.
E imaginei sua resposta:
“Já vimos tudo isso antes”.

Isaac B. Singer, Amor e Exílio: Memórias (L&PM, pg. 234)





Respostas.

17 05 2009

Dize-me o que sentes em teu quarto solitário, quando a lua cheia te visita e que tens apagada a tua lâmpada, e eu te direi a tua idade e  saberei se tu és feliz.

Amiel, Diário Íntimo (Ediouro, pg. 259)





Estorvo.

17 05 2009

Não estou na ordem e não tenho paz verdadeira, a minha alma não é mais do que um abismo inquieto, tenebroso e devorador, e não estou em regra nem com a vida nem com a morte.

Amiel, Diário Íntimo (Ediouro, pg. 259)





Ser ator.

15 05 2009

Soliloquio_del_7_by_loganart

ser ator é conviver com o mundo
estando fora dele
observar o tempo passar
fingindo o triste esquecimento

ser ator é abraçar o mundo
quando não se tem fé no alheio sentimento
(ainda por ternura, ainda por amor)

ser ator é decorar o texto sem sentido
roto e repetido
o texto que não fala ao coração
o texto que não consola
o texto de um autor
há muito fora de moda

ser ator é subir ao procênio sem platéia
sem riso e sem aplauso
encenando a loucura do próprio gênio
(por si, para si)

ser ator é desejar todas as almas do mundo
com suas máscaras
e dramas e comédias
e posição em cena
por desejo de tornar-se
sem jamais realmente poder vir a ser

ser ator é conviver com fantasmas
que lhe contam coisas ao longo dos atos da vida
sempre anotando tudo
sempre aclarando a memória
que acaba por se tornar outra coisa

ser ator é,
ouvir,
para não esquecer
para representar
no imaginário e fantasia
aquilo que não poderia ser a realidade
(mas é)

ser ator é ver a cortina se encerrar
para no palco se sentar
e indefinidamente aguardar
o verdadeiro espetáculo
da vida

que a de começar
que a de começar
que a de começar!

(Bêbado e louco, como poucos!)





Antípodas.

11 05 2009

Love__by_Reaubain

Quero lhe fazer uma pergunta, mas responda com sinceridade. Você ama alguém? Jamais amou?
- Sim, mas…
- Não há mas. Quando se ama não existe mas.
- O mas é que posso amar outra pessoa também.
- Veja só…um menino de yeshivah e fala como um verdadeiro Don Juan. Quantas amantes teve até hoje?
- Só uma, Gina.
- Pelo menos é honesto, ou parece. Mark era mentiroso, um mentiroso horrível, patológico. Todo o tempo me escrevendo aquelas cartas ardentes – que chegavam a chiar entre meus dedos. Se as pessoas podem mentir tanto, a vida não vale nada. Você disse que estava interessado em escrever, e tudo mais. Por que as pessoas mentem tanto? Qual o motivo?
- O motivo é haver leis que são mentiras desde o começo. O seu Mark pode ter amado você e seis outras ao mesmo tempo. Não podia assinar um contrato para amar você a vida toda. Obviamente teve outras o tempo todo. Só me admiro de você não poder entender isso.
- Eu entendo, entendo, sim. Posso entender tudo – até cada ladrão, cada assassino, cada degenerado. Mas só posso amar uma pessoa. Desde o dia em que o encontrei amei só a ele, e todos os meus sonhos foram só com ele.
- Não é culpa dele se tem natureza diferente da sua.

Isaac B. Singer, Amor e Exílio: Memórias (L&PM, pg. 175-6)





Todo mundo perde para o destino.

11 05 2009

O destino jogava comigo, e continuei jogando. Pude ver claramente que estava sendo levado para a desgraça, mas disse a mim mesmo que estava preparado. De qualquer modo, todo mundo perde para o destino.

Isaac B. Singer, Amor e Exílio: Memórias (L&PM, pg. 171)





Um caminho reto pelo mundo.

11 05 2009

As contradições de meu caráter eram tais que eu não podia nem ficar sozinho nem suportar outros, nem conseguir manter segredo total sobre meu comportamento. Armava uma espécie de conspiração pessoal. De certa forma praticava minha teoria de que não se pode avançar num caminho reto pelo mundo, mas que é preciso esgueira-se disfarçadamente por ele, ou passar por ele desordenadamente.

Isaac B. Singer, Amor e Exílio: Memórias (L&PM, pg. 173)