Conservo aú en mi una enorme cantidad de alegría que no habré encontrado la manera de gastar.
Dos diários de André Gide, 19 de julho de 1905
Conservo aú en mi una enorme cantidad de alegría que no habré encontrado la manera de gastar.
Dos diários de André Gide, 19 de julho de 1905
E se este presente fosse a última noite do mundo?
John Donne, Preces sob Ocasiões Inesperadas
A verdadeira mudança ocorre na ação; as explicações racionais, sempre aleatórias, que visam compreender e fazer compreender o porquê dos comportamentos, raramente provocam mudanças espontâneas.
Françoise Kourilsky-Belliard, Do desejo ao prazer de mudar (Manole, pg. 50)
Às cegas, num mundo louco no meio de estranhos.
Samuel Beckett, Malone Morre, Códex, pg. 151.
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
não entendo quando dizem que há tristezas sem nome, sem cor, sem cheiro, sem substância
a minha tristeza tem nome, RG, CPF, nasceu de pai e de mãe voluntariosos
com hora marcada para deixar o mundo
a minha tristeza que é coisa minha e me rodeia e me cerca e me exige coisas que nunca imaginei que pudessem caber
entre um homem e suas desventuras
a minha tristeza inconsolável, e tão paradoxal,
com seu profundo sorriso irreal
(como poderia a tristeza ter sorriso, assim, tão lindo?)
não entendo quando dizem que há tristezas que nos confundem porque já nascem esfaceladas em caquinhos espalhados por aí
a minha tristeza parece que já nasceu de todo pronta, bem acabadinha, reluzente na sua superfície de cristal
e nunca se parte,
sincera
prepara minha cama todas as noites para que possa me acordar no dia seguinte e caprichosa se deita comigo
(jamais perdi o meu horário)
lê comigo meus livros, sentada a meu lado
e se enternece com a minha paciência quando eu não consigo compreender algo
segue o laborioso preparo das palavras em meus textos e acha graça em haver tanta esperança no mundo
ouve comigo o som da porta batendo quando saio para a rua
olha para a mesma direção que eu e observa o mundo atentamente
com a mesma falta de curiosidade
não sabe falar outro idioma, nem quer saber
não sabe mentir para si própria, mas vive criando personagens de ficção para além de toda a capacidade de sonhar
não sabe lidar com dias chuvosos e sente arrepios com as tempestades
não sabe viver longe do brilho da noite e ama enlouquecidamente os olhos da lua
não sabe parar por um minuto sequer procurando sempre no tempo
uma outra coisa qualquer
não sabe encontrar, sozinha, o caminho pra casa
a minha tristeza,
que acaba de chegar
Me parece que nasci e vivi muito tempo e errei pelas cidades, as florestas e os desertos, e estive durante muito tempo à beira dos mares em lágrimas diante das ilhas e penínsulas onde vinham brilhar, à noite, as pequenas luzes amarelas e breves dos homens e toda a noite os grandes fogos brancos ou de cores vivas que vinham até as cavernas onde eu era feliz, deitado sobre a areia ao abrigo dos rochedos no perfume das algas e da rocha úmida ao som do vento das vagas me açoitando com espuma ou suspirando sobre a praia mal tocando os seixos do chão, não, feliz não, eu nunca fui isso, mas desejando que a noite não acabasse jamais e nem voltasse o dia que faz os homens dizerem, vamos, a vida passa, é preciso aproveitar. Aliás, pouco importa que eu tenha nascido ou não, que eu tenha vivido ou não, que eu esteja morto ou apenas moribundo, vou fazer do jeito que sempre fiz, na ignorância do que faço, de quem sou, donde estou, se é que sou.
Samuel Beckett, Malone Morre, Códex, pg. 67.
A questão da vida que vale a pena viver não é, como costumamos supor, uma questão tão grande e abstrata que só pode ser levantada de maneira apropriada em uma aula de filosofia ou em uma sessão de psicoterapia. Não é uma questão avassaladora de considerar de uma só vez minha vida inteira; é, mais que isso, uma questão de entabular a pergunta muito mais simples e urgente de o que vou fazer agora, nos próximos trinta, sessenta ou noventa minutos de minha vida, pelo resto do dia, então amanhã e no dia seguinte. Qual é, agora, a ação que faria de minha vida uma vida com a qual eu pudesse ficar racionalmente satisfeito? Como devo levar essa vida não é uma questão que pode ser novamente adiada – pois a vida tem a característica insistente de não poder se adiada.
Mark Kingwell, Aprendendo Felicidade, Relume Dumará, pg 301.
Muitas vezes, é através do sofrimento que aprendemos, mas é muito melhor aprender sem sofrer, ou aprender com o sofrimento dos outros (sem fazer os outros sofrerem, claro). Contudo, algumas pessoas acham que, como muitas vezes o sofrimento leva ao conhecimento, ele é essencial para todo tipo de conhecimento, ou que quem sofre necessariamente aprende mais do que quem não sofre. Em geral, isso pode ser verdade – o que não quer dizer, em hipóte alguma, que seja sempre verdade. Muita gente sofre e não aprende nunca. Outros aprendem mais rápido e evitam o sofrimento.
Contudo, como o sofrimento tem um custo muito alto para nós, talvez sintamos a necessidade de estabelecer algum tipo de compensação para ele. Não gostamos de pensar que o sofrimento que passamos foi desnecessário ou que poderíamos tê-lo evitado, pois isso significaria admitir que a vida foi pior do que poderia ter sido e que não nos beneficiamos de forma alguma com isso. Achamos que as pessoas que sofreram menos perderam alguma coisa. Seria muito ruim simplesmente aceitar que essas pessoas foram mais felizes do que nós em suas escolhas.
Julian Baggini, Para que serve tudo isso?, Zahar, pg. 170.
Quién te dijo que deseo ser feliz, severo? Es el último adjetivo que emplearía para definir el futuro al cual aspiro. Quiero una vida interesante, aventurera, diferente, apasionada, en fin, cualquier cosa antes que feliz.
— Isabel Allende.
Toda pobreza é relativa.
as minhas noites são sempre muito ricas. uma pena eu amanhecer sempre pobre.
[por aqui]
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