Nos nossos tempos, das mais altas às mais baixas classes da sociedade, todos vivem como se estivessem sob as vistas de uma hostil e terrível censura. Não apenas no que se refere a outros, mas no que diz respeito unicamente a cada um, o indivíduo não se pergunta: o que prefiro? ou, o que condiz com meu caráter e disposição? ou, o que permitiria o que há de melhor e mais elevado em mim ser tratado com imparcialidade, de modo que pudesse crescer e vicejar? Antes, pergunta-se: o que é mais conveniente a minha posição? o que fazem comumente as pessoas da minha categoria e condição financeira? ou, pior ainda, o que comumente fazem as pessoas de condição e posição superiores às minhas? Não digo que escolham o que é costumeiro em detrimento do que convém às suas inclinações próprias. Não lhes ocorre possuir nenhuma inclinação, exceto para o que é costumeiro. Assim o espírito mesmo se curva perante o jugo: mesmo no que se faz por prazer, o conformismo é a primeira coisa em que se pensa; as pessoas se sentem atraídas por multidões, exercem a escolha apenas quanto ao que comumente se faz: evitam a peculiaridade de gosto, a excentricidade da conduta, como se esquivam de um crime; à força de não seguirem sua própria natureza não dispõem de nenhuma natureza para seguir - suas faculdades humanas estão secas e definhadas, tornando-as incapazes de quaisquer desejos intensos ou prazeres naturais, e em geral carecem de opiniões ou sentimentos que se desenvolvam no seu interior, ou que lhes pertençam propriamente. Ora, será ou não esta a condição desejável da natureza humana?
John Stuart Mill, A liberdade/Utilitarismo (Martins Fontes, pg. 93-4)
