30 06 2008

Certas alegrias só os poetas podem dar a si mesmos.

Fausto Wolf, A milésima segunda noite, Bertrand Brasil, pg. 238.





30 06 2008

De onde vem a solidão?

Cesare Pavese, Diálogos com Leucó, Cosacnaif, pg. 138.





À frente de si mesmo.

26 06 2008

Ser moderno significa estar sempre à frente de si mesmo, num estado de constante transgressão.

Do capítulo “Emancipação”, Zygmunt Bauman, Modernidade Líquida (Jorge Zahar, pg. 37)





26 06 2008

Que sçais je? O que sei eu?

Michel de Montaigne, do ensaio Montaigne, ou o Cético, em Homens Representativos, de Ralph Waldo Emerson (Imago, pg. 117).





25 06 2008

só a vida existe

Verso do poema La Recoleta, Obras Completas de Jorge Luis Borges, Vol. 1 (Globo, pg. 16)





A índole do tempo é difícil.

24 06 2008

A índole do tempo é difícil. Ele é mais pálido que o irmão, o espaço, mais irriquieto, mais misterioso, mais difícil de penetrar, de julgar e de conhecer. Mais inteligente também. E menos confiável. É personagem cruel, nervoso, volúvel, propenso ao paradoxo, de instabilidade doentia. Dele se pode dizer que dorme com um olho aberto, está sempre com um pé atrás ou fora e não perde oportunidade de deixar a companhia e ir-se porque se entediou. Confiar nele é loucura a que muitos se deixam levar.

Esse indivíduo instável, tão pouco digno de confiança, sexualmente mal resolvido, dado a todos os vícios e a todas as drogas, é sedutor profissional. Noite adentro, com luz de velas, conta histórias maravilhosas em que o amor se mescla à guerra, as quais o mais das vezes terminam mal. Diferentemente do irmão, transbordante de saúde, um tanto corado, sempre criança, pode-se dizer que o tempo não tem idade. Ele chega, aqui ou ali, a dar cambalhotas como um jovem. De súbito está muito velho. É capaz, contudo, de seduzir quem ele queira. E não se priva desse dom. Dons, ademais, não lhe faltam – tem todos. Usa-os, abusa-os. Não pára de elaborar projetos e de construir magníficos castelos no ar, destinados a desaparecer. O cúmulo é que chega a tomar verdadeiramente o poder, a fazer verdadeiramente fortuna e a conhecer o verdadeiro amor. É tão imprevisível, que dele sequer é possível desconfiar completamente.

Ele não é bom de amar. Tem um fraco pela morte, pelos fins trágicos, pelas paixões que sucubem e pelas demoradas ruínas. Pergunta-mo-nos por vezes se não está possuído pelo mal. Esse rapaz tão sedutor, que se confunde com o entusiasmo e com a esperança, tem um lado demoníaco. Por suas terras, tão imensas, também elas, que não se lhes vê o fim, nunca se passa duas vezes. Ele convida uma vez, com muito encanto e satisfação. A primeira estada, todavia, também é a última. Que não se acalente a esperança de voltar: “A meus domínios”, declara ele com odiosa soberba, “não se volta jamais”.

Pode-se suspeitar que o tempo seja dotado de poder algo secreto, insidioso, desmedido. Ele vangloria-se com muito gosto, e talvez sem falsidade, de dominar a todos os que têm a sorte ou o azar – como saber com ele? – de cair em seus domínios. Atribuem-se-lhe crimes inomináveis. Mas também muitos êxitos. Ele é quase sempre sombrio e sinistro, mas também sabe ser alegre e jovial. Transborda de idéias, de receitas, de lembranças, de histórias arrepiantes e de contos de fadas para as crianças. Todos os que têm projetos, empreendimentos, esperanças, bem como temores, procuram-no para que os auxilie. É fabricante de sonhos, doador de conselhos, emprestador também, e ilusionista, e agitador. É tão contraditório, que uns afirmam que ele os entedia e lhes provoca bocejos, enquanto outros o vêem, ao contrário, como animador prodigioso, mercador de ilusões e armadilhas, lanterna da noite e luz da esperança, professor de energia, mestre em quase todas as coisas. Profeta e mentor. Ninguém é mais misterioso. Nada mais enigmático. Nada mais fascinante.

Jean d’Ormesson, Quase nada sobre quase tudo (Record, pg. 32, ligeiramente adaptado)





Sofro, Lídia, do medo do destino.

24 06 2008

Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena coisa de onde pode
Brotar uma nova ordem em minha vida,
Lídia, me aterra.

Qualquer coisa, qual seja, que transforme
Meu plano curso da existência, embora
Para melhores coisas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os Deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até o fim.

A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa ’stima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
E que eu a viva.

26-5-1917
Ricardo Reis

Texto crítico das Odes de Fernando Pessoa/Ricardo Reis, Imprensa Nacional, Casa da Moeda pg. 168, de Silva Bélkior.





Songs for headphones #001

24 06 2008

Jason Mraz – Details in the Fabric (feat. James Morrison)





Cegueira.

24 06 2008

Viver, sem buscar o que se é, é uma cegueira extraordinária.

Do ensaio sobre Pascal, do livro A escada dos fundos da filosofia, a vida cotidiana e o pensamento de 34 grandes filósofos, de Wilhelm Weischedel (Angra, pg. 144)





Olhos abertos.

24 06 2008

Tornamo-nos nós mesmos quando entramos na situação-limite de olhos abertos.

Do ensaio sobre Jaspers, do livro A escada dos fundos da filosofia, a vida cotidiana e o pensamento de 34 grandes filósofos, de Wilhelm Weischedel (Angra, pg. 301)





Verdadeira existência.

24 06 2008

Possuir uma verdade não tem nenhum sentido se ela não toca e não transforma a existência.

Do ensaio sobre Kierkegaard, do livro A escada dos fundos da filosofia, a vida cotidiana e o pensamento de 34 grandes filósofos, de Wilhelm Weischedel (Angra, pg. 260)





A verdade ou a luta?

24 06 2008

Se Deus segurasse toda a verdade oculta em sua mão direita e, na mão esquerda, a persistente luta pela verdade…e dissesse “Escolha!”, eu humildemente me curvaria diante de sua mão esquerda e diria: “Pai, dá-me a luta. Porque a verdade pura é para Ti somente”.

Gotthold Lessing

Epígrafe do livro Verdade, uma história, de Felipe Fernández-Armesto (Record)





Pergunte.

23 06 2008

A arte de perguntar não é tão fácil como parece. É mais uma arte dos mestres do que dos discípulos; é necessário ter aprendido muitas coisas para saber perguntar o que não se sabe.
(Jean-Jacques Rousseau)

A inteligência não é um enganoso sistema de respostas, mas um incansável sistema de perguntas.
(José Antonio Marina)

Josep Muñoz Redon, El libro de las preguntas desconcertantes (Paidós, pg. 16)





A maldição da razão.

23 06 2008

Eu tenho a maldição da razão; sou pobre, solteiro e depressivo. Há meses reflito sobre a doença de refletir demasiadamente e estabeleci com toda a certeza a correlação entre a minha infelicidade e a incontinência da minha razão. Pensar, tentar compreender nunca me trouxe nenhum benefício, mas, ao contrário, sempre atuou contra mim. Refletir não é uma operação natural e fere, como se revelasse cacos de garrafa e arames farpados misturados com o ar. Eu não consigo deter o meu cérebro, diminuir o seu ritmo. Sinto-me como uma locomotiva, uma velha locomotiva que se precipita nos trilhos e que não poderá jamais parar, porque o combustível que lhe dá a sua potência vertiginosa, o seu carvão, é o mundo. Tudo o que vejo, sinto, escuto se engolfa no forno do meu espírito e o impele e faz funcionar a pleno vapor. Tentar compreender é um suicídio social, e isso significa já não desfrutar a vida sem sentir-se, a contragosto, e ao mesmo tempo, uma ave de rapina e um abutre que despedaça os seus objetos de estudo. Frequentemente matamos aquilo que buscamos compreender.

Martin Page, Como me tornei estúpido (Rocco, pg. 60)





Desejos.

23 06 2008

É horrível na vida da gente ficar sem alguma coisa que nós queremos; mas caramba, o que me enfurece é não poder dar a alguém alguma coisa que a gente queria que ele tivesse.

Truman Capote, Histórias maravilhosas, (Nova Fronteira, pg. 20)