Ficai ao meu lado, apoiai-me, guiai-me, potestades benditas!
Herman Melville, Moby Dick (Biblioteca Folha, pg. 206)
Ficai ao meu lado, apoiai-me, guiai-me, potestades benditas!
Herman Melville, Moby Dick (Biblioteca Folha, pg. 206)
Somente a tua verdade e a tua realização podem fazer-te ver.
Sem ti, tudo está perdido para ti.
Meneghetti
Antoine tentou outros caminhos, outras soluções para resolver a sua dificuldade em participar da vida.
(…)
Ele vivera no olho do ciclone, que é um lugar calmo e solitário cercado da mais infernal tempestade.
Martin Page, Como me tornei estúpido, (Rocco, pg. 14 e pg. 70)
- Nunca vivemos mais – disse Angèle.
- Diga-me, pode-se realmente viver mais? De onde você tirou o sentimento de uma maior exuberância? Quem lhe disse que isso seria possível? Hubert? Será que ele vive mais porque se agita?
André Gide, Paludes (Noa Fronteira, pg. 113)
Mas não aguento mais: parto…vou viajar.
- Você? – disse Roland. – Ah! Para onde, e quando?
- Depois de amanhã. Para onde? Não sei…mas, caro amigo, você compreende que se eu soubesse para onde vou, e para fazer o quê, não sairia da minha aflição. Parto simplesmente por partir; a própria surpresa é meu fim….o imprevisto. Entendeu? O imprevisto!
André Gide, Paludes (Noa Fronteira, pg. 52)
Que mundo idiota, os estranhos sentimentos das pessoas, os segredos, cada pessoa escondendo-se dentro de si mesma, querendo alguma coisa e sempre ganhando outra, querendo dar alguma coisa e sempre dando outra.
William Saroyan, O jovem audaz no trapézio voador e outras histórias. (Paz e Terra, pg. 160)
Monólogo de uma personagem feminina.
Há seis bilhões de pessoas no mundo, é verdade.
No entanto, suas ações fazem diferença.
Fazem diferença em termos materiais e
fazem diferença para outras pessoas.
Servem de exemplo.
A mensagem é: não devemos
jamais nos eximir…
e nos vermos como vítimas de várias forças.
Quem nós somos é sempre uma decisão nossa.
A criação vem da imperfeição
Parece ter vindo de um anseio
e de uma frustração.
É daí, eu acho,
que veio a linguagem.
Quero dizer, veio do nosso desejo
de transcender o nosso isolamento…
e de estabelecer ligações
uns com os outros.
Devia ser fácil quando era só
uma questão de mera sobrevivência.
“Água” . Criamos um som para isso.
“Tigre atrás de você!”
Criamos um som para isso.
Mas fica realmente interessante,
eu acho…
quando usamos esse mesmo
sistema de símbolos…
para comunicar tudo de abstrato
e intangível que vivenciamos.
O que é “frustração”?
Ou o que é “raiva” ou “amor”?
Quando eu digo “amor” …
o som sai da minha boca e atinge o ouvido de outra pessoa…
viaja através de um canal labiríntico em seu cérebro…
através das memórias de amor
ou de falta de amor.
O outro diz que compreende, mas como sei disso?
As palavras são inertes.
São apenas símbolos.
Estão mortas. Sabe?
E tanto da nossa experiência é intangível.
Tanto do que percebemos é inexprimível. É indizível.
E, ainda assim, quando nos comunicamos uns com os outros…
e sentimos ter feito uma ligação,
e termos sido compreendidos…
acho que temos uma sensação quase
como uma comunhão espiritual.
Essa sensação pode ser transitória,
mas é para isso que vivemos.
Excertos do filme “Waking Life“.
A gente muda. É só continuar vivendo.
Samuel Beckett, Malone Morre, pg. 37 (Códex)
Tem gente que vive como se viver fosse a coisa mais natural do mundo.
Jens Peter Jacobsen, escritor dinamarquês. Sr. escritor, eu diria. Do livro “Niels Lihne” (Cosacnaif)
O vento varria as folhas,
o vento varria os frutos,
o vento varria as flores…
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de frutos, de flores, de folhas.
O vento varria as luzes,
o vento varria as músicas,
o vento varria os aromas…
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos
e varria as amizades…
o vento varria as mulheres.
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de afetos e de mulheres.
O vento varria os meses
e varria os teus sorrisos…
o vento varria tudo!
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de tudo.
Manuel Bandeira, Estrela da Vida Inteira, Poesia Completa, pg. 177 (Nova Fronteira)
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
Adaptado do poema “Os três mal amados”, João Cabral de Melo Neto, Serial e Antes, (Nova Fronteira, pg. 21)
Todo homem tem direito às dúvidas. Sábios e loucos, santos e pecadores, todos cultivam as mesmas perplexidades, de onde vim, quem sou eu, para onde vou. Como se não bastassem essas dúvidas, às quais todos têm direito, eu tenho cá outro tipo de dúvida mais estúpida e cruel: a de não ser eu mesmo.
Carlos Heitor Cony, O indigitado (Objetiva)
Olhar bem para as coisas que
de repente
deixaremos de ver para sempre.
Aníbal M. Machado, A arte de viver e outras artes: Cadernos de João, ensaios, crítica dispersa, auto-retratos (Graphia, pg. 9)
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