Só.

24 02 2008

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Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida.

- James Joyce,
Da epígrafe do livro de Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem [Rocco, 1998]





Intencionalidade.

23 02 2008

Mas e se uma pessoa fosse avaliada não apenas pelo que tinha feito, mas também pelo que pretendera fazer?

Leonid Andreiev, Os sete enforcados, pg. 92 (Rocco)





Dúvidas.

21 02 2008

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Todos os dias necessito minha ração de dúvida. Me alimenta, literalmente. Nunca houve um ceticismo mais orgânico. E, sem dúvida, todas as minhas reações são as de um histérico. Dá-me dúvidas e mais dúvidas. São – mais que meu alimento – minha droga. Não posso prescindir delas. Estou intoxicado com elas para toda a vida. De modo que quando encontro uma, a que seja, me precipito sobre ela, a devoro, a incorporo na minha substância. Pois minha capacidade para assimilá-las – as dúvidas – é ilimitada; as digiro todas, são minha substância e minha razão de ser. Não posso imaginar-me sem elas. Dá-me dúvidas, mais e mais dúvidas.

E. M. Cioran, Cuadernos (1957-1972), pg. 100-1 (Tusquet Editores)





Despedida.

20 02 2008

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Eu deixarei o mundo com fúria
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.

De fato
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
raízes tão profundas
quanto estes céus brasileiros.
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique

Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.

Ferreira Gullar, Toda Poesia, pg. 320 (José Olympio)





A felicidade é um estado.

20 02 2008

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A felicidade é um estado. Isso quer dizer uma maneira de ser que consiste em ser por nada senão por ser e em encontrar nessa maneira de ser assim gratuitamente uma forma de plenitude. Em virtude disso, a felicidade não está nas coisas nem é alguma coisa. Ela também não está em alguém nem é alguém, mas está na maneira pela qual se vivem as coisas e os outros. Tudo pode, portanto, tornar-se ocasião de felicidade. Todo mundo igualmente. Por menos que se faça não só um esforço para ser, mas também e sobretudo o esforço de ser. Donde a extraordinária liberdade da felicidade. Sua extraordinária capacidade igualmente de poder transformar tudo.

Bertrand Vergerly, O Sofrimento, p. 129 (EDUSC)





Teo.

19 02 2008

Por que Deus, que é perfeito e está além da necessidade, criou coisas?

Paul Zweig, Walt Whitman, a formação do poeta, pg. 269 (Jorge Zahar)





“Relacionamento puro”, A. Giddens

16 02 2008

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O “relacionamento puro” tende a ser, nos dias de hoje, a forma predominante de convívio humano, na qual se entra “pelo que cada um pode ganhar” e se “continua apenas enquanto ambas as partes imaginem que estão proporcionando a cada uma satisfações suficientes para permanecerem na relação”.

Zigmunt Bauman, Amor líquido, sobre a fragilidade dos laços humanos, p. 111 (Jorge Zahar)





Change the world.

16 02 2008

Se o mundo o incomoda, mude-o. Mas, por favor, pare de denegri-lo sem fazer nada. Caso contrário vai-se concluir muito logicamente que este mundo que você dirige sem fazer nada para mudá-lo, no fundo não o incomoda, e que o seu desespero não é senão a fachada de um conformismo.

Bertrand Vergely, O sofrimento, pg. 39 (EDUSC)





A dor.

14 02 2008

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Existem alguns grandes critérios imutáveis que revelam o valor do homem. Um deles é a dor; é a prova mais dura no seio desta sucessão de provas que se costuma chamar vida. É por isso que uma meditação sobre a dor é forçosamente impopular: contudo, ela é não só rica em ensinamentos, como também esclarece uma série de questões que nos preocupam hoje. A dor é uma dessas chaves que abrem não só a intimidade do homem, mas também o mundo como um todo. Se se chegar ao ponto no qual o homem se mostra à altura da dor ou mesmo superior a ela, acede-se às fontes de seu poder e ao segredo que se esconde atrás de sua dominação. Diz-me qual é tua relação com a dor, e dir-te-ei quem és!…

Ernst Jünger, Sur la douleur, trad. J. Hervier, Nantes, Le Passeur, 1994, p. 18, 76.





919

13 02 2008

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Do diário de Fausto Wolff: “Experimente explicar a uma barata a beleza de uma borboleta”.

Fausto Wolff, A milésima segunda noite, p. 648 (Bertrand Brasil)





A vida, segundo Bertrand Vergely

12 02 2008

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Existe uma doença do sentimento da vida assim como da relação com a vida. Não se sabe mais por que é importante viver. Não se quer mais saber por que é importante viver. Porque, dizem-nos, trata-se de um falso problema! O que faz pensar. Pois, se o fato de se perguntar por que é importante viver é um falso problema, onde está então o verdadeiro problema? No simples fato de viver e de responder à pergunta “como viver?” ao invés de responder a “por que viver?”? Nada é menos convincente. Pois, como viver sem compreender o que se vive, nem sem saber aonde se vai?

Bertrand Vergely, O sofrimento, pg. 40 (EDUSC)





Janela sobre o medo

10 02 2008

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A fome come o medo. O medo do silêncio atordoa as ruas.
O medo ameaça:
Se você amar, vai pegar aids.
Se fumar, vai ter câncer.
Se respirar, vai se contaminar.
Se beber, vai ter acidentes.
Se comer, vai ter colesterol.
Se falar, vai perder o emprego.
Se caminhar, vai ter violência.
Se pensar, vai ter angústia.
Se duvidar, vai ter loucura.
Se sentir, vai ter solidão.

Eduardo Galeano, As palavras andantes, p.154 (L&PM)





O que resiste?

9 02 2008

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Passei uma noite agitada vendo-me de alguma forma vivo, alguém no mundo e ao mesmo tempo uma substância que estava mudando e mudaria constantemente; de um momento para outro, imperceptivelmente. Eu queria saber o que em mim era estático, permanente e resistente.

William Saroyan, O jovem audaz no trapézio voador e outras histórias, pg. 79. (Paz e Terra)





Algum outro.

8 02 2008

Sou alguém a quem hoje tudo o que vê incomoda e que tenta ver o menos possível. Alguém a quem as circunstâncias empurram para se transformar, o mais rápido possível, em outro. E também sou alguém que, quando tiver se transformado em outro, terá de agir como se isso não fosse nada demais, como se pertencesse à ordem natural do mundo.

Enrique Vila-Matas, A viagem vertical, p. 23 (Cosac & Naif)





De que te serve?

8 02 2008

De que te serve a lucidez
se estás sozinho quando vês?

Do poema As últimas cores do dia, de Eduardo Alves da Costa