
Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida.
- James Joyce,
Da epígrafe do livro de Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem [Rocco, 1998]

Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida.
- James Joyce,
Da epígrafe do livro de Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem [Rocco, 1998]
Mas e se uma pessoa fosse avaliada não apenas pelo que tinha feito, mas também pelo que pretendera fazer?
Leonid Andreiev, Os sete enforcados, pg. 92 (Rocco)

Todos os dias necessito minha ração de dúvida. Me alimenta, literalmente. Nunca houve um ceticismo mais orgânico. E, sem dúvida, todas as minhas reações são as de um histérico. Dá-me dúvidas e mais dúvidas. São – mais que meu alimento – minha droga. Não posso prescindir delas. Estou intoxicado com elas para toda a vida. De modo que quando encontro uma, a que seja, me precipito sobre ela, a devoro, a incorporo na minha substância. Pois minha capacidade para assimilá-las – as dúvidas – é ilimitada; as digiro todas, são minha substância e minha razão de ser. Não posso imaginar-me sem elas. Dá-me dúvidas, mais e mais dúvidas.
E. M. Cioran, Cuadernos (1957-1972), pg. 100-1 (Tusquet Editores)

Eu deixarei o mundo com fúria
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.
De fato
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
raízes tão profundas
quanto estes céus brasileiros.
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique
Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.
Ferreira Gullar, Toda Poesia, pg. 320 (José Olympio)

A felicidade é um estado. Isso quer dizer uma maneira de ser que consiste em ser por nada senão por ser e em encontrar nessa maneira de ser assim gratuitamente uma forma de plenitude. Em virtude disso, a felicidade não está nas coisas nem é alguma coisa. Ela também não está em alguém nem é alguém, mas está na maneira pela qual se vivem as coisas e os outros. Tudo pode, portanto, tornar-se ocasião de felicidade. Todo mundo igualmente. Por menos que se faça não só um esforço para ser, mas também e sobretudo o esforço de ser. Donde a extraordinária liberdade da felicidade. Sua extraordinária capacidade igualmente de poder transformar tudo.
Bertrand Vergerly, O Sofrimento, p. 129 (EDUSC)
Por que Deus, que é perfeito e está além da necessidade, criou coisas?
Paul Zweig, Walt Whitman, a formação do poeta, pg. 269 (Jorge Zahar)

O “relacionamento puro” tende a ser, nos dias de hoje, a forma predominante de convívio humano, na qual se entra “pelo que cada um pode ganhar” e se “continua apenas enquanto ambas as partes imaginem que estão proporcionando a cada uma satisfações suficientes para permanecerem na relação”.
Zigmunt Bauman, Amor líquido, sobre a fragilidade dos laços humanos, p. 111 (Jorge Zahar)
Se o mundo o incomoda, mude-o. Mas, por favor, pare de denegri-lo sem fazer nada. Caso contrário vai-se concluir muito logicamente que este mundo que você dirige sem fazer nada para mudá-lo, no fundo não o incomoda, e que o seu desespero não é senão a fachada de um conformismo.
Bertrand Vergely, O sofrimento, pg. 39 (EDUSC)

Existem alguns grandes critérios imutáveis que revelam o valor do homem. Um deles é a dor; é a prova mais dura no seio desta sucessão de provas que se costuma chamar vida. É por isso que uma meditação sobre a dor é forçosamente impopular: contudo, ela é não só rica em ensinamentos, como também esclarece uma série de questões que nos preocupam hoje. A dor é uma dessas chaves que abrem não só a intimidade do homem, mas também o mundo como um todo. Se se chegar ao ponto no qual o homem se mostra à altura da dor ou mesmo superior a ela, acede-se às fontes de seu poder e ao segredo que se esconde atrás de sua dominação. Diz-me qual é tua relação com a dor, e dir-te-ei quem és!…
Ernst Jünger, Sur la douleur, trad. J. Hervier, Nantes, Le Passeur, 1994, p. 18, 76.

Do diário de Fausto Wolff: “Experimente explicar a uma barata a beleza de uma borboleta”.
Fausto Wolff, A milésima segunda noite, p. 648 (Bertrand Brasil)

Existe uma doença do sentimento da vida assim como da relação com a vida. Não se sabe mais por que é importante viver. Não se quer mais saber por que é importante viver. Porque, dizem-nos, trata-se de um falso problema! O que faz pensar. Pois, se o fato de se perguntar por que é importante viver é um falso problema, onde está então o verdadeiro problema? No simples fato de viver e de responder à pergunta “como viver?” ao invés de responder a “por que viver?”? Nada é menos convincente. Pois, como viver sem compreender o que se vive, nem sem saber aonde se vai?
Bertrand Vergely, O sofrimento, pg. 40 (EDUSC)

A fome come o medo. O medo do silêncio atordoa as ruas.
O medo ameaça:
Se você amar, vai pegar aids.
Se fumar, vai ter câncer.
Se respirar, vai se contaminar.
Se beber, vai ter acidentes.
Se comer, vai ter colesterol.
Se falar, vai perder o emprego.
Se caminhar, vai ter violência.
Se pensar, vai ter angústia.
Se duvidar, vai ter loucura.
Se sentir, vai ter solidão.
Eduardo Galeano, As palavras andantes, p.154 (L&PM)

Passei uma noite agitada vendo-me de alguma forma vivo, alguém no mundo e ao mesmo tempo uma substância que estava mudando e mudaria constantemente; de um momento para outro, imperceptivelmente. Eu queria saber o que em mim era estático, permanente e resistente.
William Saroyan, O jovem audaz no trapézio voador e outras histórias, pg. 79. (Paz e Terra)
Sou alguém a quem hoje tudo o que vê incomoda e que tenta ver o menos possível. Alguém a quem as circunstâncias empurram para se transformar, o mais rápido possível, em outro. E também sou alguém que, quando tiver se transformado em outro, terá de agir como se isso não fosse nada demais, como se pertencesse à ordem natural do mundo.
Enrique Vila-Matas, A viagem vertical, p. 23 (Cosac & Naif)
De que te serve a lucidez
se estás sozinho quando vês?
Do poema As últimas cores do dia, de Eduardo Alves da Costa
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