Pela certeza de estar contente.

28 01 2008

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Ah, quem me dera um lugar
no olho do furacão
- um centro de paz
no seio do turbilhão!
Um barracão de madeira
rodeado por um jardim
onde ninguém se lembrasse
nem pensasse em mim.

Mulher e filhos comigo,
sem cuidados nem sustos,
entregues todos à faina
de cultivar o umbigo.
Nada de planos nem datas,
visitas ou comprimissos;
apenas a chuva nas latas
do telhado e o vento
a cantar nos caniços.

Na hora de comer, comer;
na hora de bailar, bailar;
na hora de dormir, dormir.
E isso não é trabalhar?
Beber água com a boca,
usar os olhos para ver;
parece fácil ao dizer,
mas são necessárias mil vidas
para o aprender.

Nenhum lampejo de inteligência,
tudo opaco, sem brilho:
digamos que se trata de trocar o ouro
pela madeira, o banquete
por um peixe a frigir na frigideira.
De resto, borboletas no espaço,
algumas carpas agitando as águas
do tanque e ausência de mágoas.
Nenhum sonho impossível
lançado aos ares para morrer
no laço; nem suposições,
hipóteses, conjecturas, projetos,
que ao primeiro terremoto
desabassem com pesos concretos.

Visões, sim; mas tão leves
que pudessem pairar
sobre nosso breve dia
com asas de poesia
sustentadas tão-somente
pela certeza de se estar contente.

Excertos do poema “Ah, quem me dera um lugar”, Eduardo Alves da Costa, Poesia Reunida, pp. 155-6 (Geração Editorial)





Insônia.

27 01 2008

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Como chateia isso de ouvir
ladrarem os cães à noite!
E o pior é que nem sou fumante.
Folheio uma revista, ligo
e desligo a TV, preparo um chá.
Que fôlego têm esses cães!
Deviam ser políticos.
Sorvo meu chá e reconheço
que encalhei nos sargaços,
prendeu-se a aba da vida
numa rebarba da cerca
e aqui estou, entre a xícara
e o Universo, perplexo.
Minha voz resmunga e eu me assusto;
só me faltava dar em falar sozinho!
Porra, será que esses malditos cães
não tem um osso para roer?!
Abandonei o fumo, deixei de beber
e confesso que me sinto muito pior.
Antes, ao menos, eu acendia um cigarro
ou brincava com as pedras de gelo e tudo
ia tomando seu lugar. Mas essa
de estar aqui sentado numa poltrona,
como quem espera sua vez no dentista,
é mesmo uma grande chatice.
Amanhã não vou ao trabalho.
Que diabo vou fazer lá se nem mesmo sei
o que ando a fazer no mundo?!
Escrevo uma carta simples, objetiva,
meto-a no correio e depois vou ao cinema.
Para sempre. Lá ao menos a vida se resolve
em duas horas, com direito
a jornal, desenho animado e trailer.
Por que será que os cães deixaram de latir?

Eduardo Alves da Costa, Poesia Reunida, p. 218-9 (Geração Editorial)





Divisa

27 01 2008

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Amour véritable
Amitié durable
Et tout le reste au diable.

Escrito pela mão de algum nobre em um livro genealógico dos reis da Saxônia do século XVII, conservado no castelo de caça de Moritzburg, conforme Schopenhauer.





Estoicismo.

27 01 2008

Nos momentos difíceis, lembra-te de conservar a imperturbabilidade, e, nos favoráveis, um coração sensato que domine a alegria excessiva.

Horácio, Odes, II, 3.





Entre 4 paredes.

25 01 2008

Os homens saem para a rua vestidos, e é impossível saber como eles são debaixo dessa roupa; o homem vive abertamente é em casa, entre quatro paredes, e você não sabe como ele vive ali!

Máximo Gorki, Ganhando meu pão, p. 267 (Mercado Aberto)





Eu estou aqui!

24 01 2008

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A divindade se foi,
como tanta ilusão da mocidade.
E embora perdido, sem novelo,
nas masmorras deste pesadelo,
hoje ao menos sei: homem humano,
brasileiro, precário,
escravo sou e por muitos anos,
ainda o serei. Mas a saída
não esqueci: lá, onde a luz
espera aqueles que não traíram
o melhor de si.
E ao pesadelo, aos suores frios,
ao terror da noite
e Deus minotauros, respondo
aos gritos, em nome
de todos os aflitos:
eu sou um homem!
eu estou aqui!

Eduardo Alves da Costa, Poesia Reunida, p. 92 (Geração Editorial)





Dramatis Personae

24 01 2008

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O trabalho de um ator não é criar sentimentos, mas apenas produzir as circunstâncias dadas, nas quais os sentimentos verdadeiros serão espontaneamente criados. (p. 9)

Representar verdadeiramente significa ser exato, lógico, coerente, empenhar-se, sentir e atuar em uníssono com o seu papel. Para representar verdadeiramente, vocês devem enveredar pelo caminho dos objetivos certos, como se estes fossem sinais de demarcação a orientá-los através de uma planície árida e deserta. (p. 35)

Quanto mais delicado o sentimento, tanto mais precisão, clareza e qualidade plástica são exigidas para a sua expressão física. Todos os momentos da atuação de um artista talentoso devem ser clara e plenamente sentidos. (pp. 47-8)

Um ator deve, sobretudo, acreditar no que está acontecendo ao seu redor e naquilo que ele próprio está fazendo. A partir do instante em que é levado do plano da realidade para o de uma vida imaginária, e acredita nela, ele pode começar a criar. (p. 92)

A imaginação cria coisas que podem existir ou acontecer. Cada movimento que vocês fizerem em cena, cada palavra que disserem, será resultado da vitalidade de sua imaginação. (p. 107)

Ponham vida em todas as circunstâncias e ações imaginárias, até satisfazerem plenamente o seu senso de verdade e despertarem um senso de fé na realidade de suas sensações. (p. 117)

As pessoas sempre se sentem atraídas por aquilo que não têm, e os atores costumam usar o palco para obterem o que a vida real não lhes ofereceu. (p. 192)

O grande ator deve sentir o papel que está representando não apenas uma ou duas vezes, enquanto o estuda, mas em maior ou menor grau todas as vezes que representá-lo, não importando se o faz pela primeira ou pela milésima vez. (p. 208)

O ator deve ter uma grande força de vontade. O primeiro dever de um ator é aprender a controlar sua vontade. Poucos atores possuem a determinação e a tenacidade necessárias para realizar o trabalho que lhes permitirá alcançar a verdadeira arte. (p. 209)

C. Stanislavski, Manual do ator (Martins Fontes)

 





Máxima 7

23 01 2008

Refletir ponderadamente sobre alguma coisa antes de realizá-la; porém, uma vez realizada, e sendo previsíveis os seus resultados, não se angustiar com reflexões contínuas a respeito dos seus possíveis perigos. Em vez disso, libertar-se completamente do assunto, manter fechada a gaveta que o contém, tranquilizando-se com a certeza de que tudo foi devidamente analisado a seu tempo. Se, ainda assim, o resultado é negativo, é porque todas as coisas estão submetidas ao acaso e ao equívoco.


Arthur Schopenhauer, A arte de ser feliz, p. 40 (Martins Fontes)




Arrebatamento interior

22 01 2008

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Em cena, tudo o que vocês fizerem friamente irá destruí-los, pois os deixará habituados à ação automática e mecânica, destituída de imaginação.

O que pode ser mais eficaz para estimulá-los interiormente e deixá-los mais arrebatados do que uma criação imaginária que tenha tomado conta de seus espíritos?

Um verdadeiro artista deixa-se arrebatar por tudo o que acontece ao seu redor, interessa-se entusiasticamente pela vida, que se torna, para ele, o objeto de seu estudo e de suas paixões. Tenta assimilar as impressões que recebe do exterior, e, como artista, procura fixá-las em seu coração. Não se pode ser frio quando se trabalha com a arte. Você têm de possuir um certo grau de entusiasmo interior.

Nossa mente pode ser ativada a qualquer momento. Mas isto não é suficiente. Precisamos da colaboração fervorosa e direta de nossas emoções e desejos, bem como de todos os outros elementos de nosso estado interior de criação. Assim como a levedura provoca a fermentação, a percepção da vida de seu papel provoca uma espécie de arrebatamento interior, a ebulição necessária para um ator. (…)

A capacidade de inflamar seus sentimentos, sua vontade e sua mente é uma das qualidades do talento de um ator e um dos objetivos fundamentais de sua técnica interior.

C. Stanislavski, Manual do Ator, p. 11-2 (Martins Fontes)





O poeta Alexandre leva seu cão raivoso a passear*

21 01 2008

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Alexandre, louco em férias, poeta disfarçado em burocrata, levanta-se
todos os dias com péssimo humor, para ser devorado pelo
relógio de ponto.

Obediente, amável, prestativo, conhece a fisionomia dos carimbos, sabe
de cor o roteiro dos papéis e sente uma vontade secreta de atear
fogo aos arquivos.

Adora olhar pela janela. Está sempre olhando pela janela, muito embora
nada aconteça.

Acredita nos homens, entregaria sua vida por eles, porque é um tolo, um
humanista impertinente, um amante das grandes causas, um
aprendiz de santo, um sofredor pela miséria alheia, uma vítima do
melodramático, um desprotegido contra a chantagem emocional,
com uma farpa da cruz atravessada no coração.

Espera ancioso o momento de lutar pelo proletariado, mas não compreende
como se resolverá o problema de acomodar os milhões de traseiros
num único trono. E se prepara, desde logo, para enfrentar os
burocratas, os donos do poder e o pelotão de fuzilamento.

Odeia os delegados, representantes, procuradores, emissários, substitutos,
intermediários, signatários e mensageiros.

Aguarda o suicídio em massa de todos os tiranetes, o exilio dos Napoleões
do brejo e dos almirantes sem navio, que não fazem outra coisa
senão passar os subordinados em revista e acabam a carreira como
soldadinhos de pau, esquecidos num sótão.

Faz amor com irregularidade, porque não obedece a nenhuma tabela nem
tem a mulher ao alcance da mão. Prefere a monogamia, não por
moral mas porque já lhe é difícil encontrar uma fêmea com sexo
e miolos no lugar.

Desconhece o que é café matinal em família, não tem filhos para levar ao
colégio, embora ame as crianças e sinta grande inveja dos que
nasceram com suficiente mediocridade para as ter sem saberem
por quê.

Caminha pela noite, sozinho, à caça de fantasmas, recebe propostas para
ser gigolô e sempre se arrepende por não as aceitar.

Parece crescer ao contrário, da velhice para a adolescência. E enquanto aguarda o momento de nascer, leva seu cão raivoso a passear.

*Adaptado do poema de Eduardo Alves da Costa, O poeta Eduardo leva seu cão raivoso a passear





Anotem meu nome

21 01 2008

Não tenho preguiça;
o mal é fraqueza
de quem não consome.
Anotem meu nome:
Fome.

Eduardo Alves da Costa, Poesia Reunida, pg. 82 (Geração Editorial)





Amar é.

11 01 2008

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Amar diz respeito a auto-sobrevivência através da alteridade.

Zygmunt Bauman, Amor Líquido – Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, p. 24 (Zahar)





Sr. Pip.

10 01 2008

Se todos os nossos atos fizessem sentido, o mundo seria um lugar diferente. A vida seria menos interessante, vocês não acham?

Lloyd Jones, O Sr. Pip, pg. 104 (Rocco)





Outra coisa.

10 01 2008
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Quanto mais familiares duas pessoas se tornam, mais a linguagem que elas falam juntas foge do discurso comum, definido pelo dicionário. A familiaridade cria uma nova linguagem caseira de intimidade que leva referências à história que os dois amantes estão fazendo juntos, e que não pode ser de pronto compreendida por outros. É uma linguagem que alude ao seu estoque de experiências compartilhadas, contém a história da relação, é o que faz falar com o amado algo diferente de falar com qualquer outra pessoa.

Alain de Botton, Ensaios de Amor, pp. 125-6 (Rocco)