Palavra Aguda

A leitura e a escrita para viver melhor a vida. E no meio uma canção.

Especulações em torno da palavra homem

5 Comentários

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Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?

um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?

Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?

E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta

nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?

Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen

brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes

de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai

e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?

Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?

Vale menos morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem

é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a?

Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?

Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem

consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono

que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?

Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?

Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?

Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas

e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é homem?

Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata

com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?

Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?

Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?

E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?

Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?

Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?

Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?

Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?

Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?

Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?

Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?

Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?

E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?

Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?

Poesia Completa de Carlos Drummond de Andrade, p. 428 (Nova Aguilar)

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5 comentários sobre “Especulações em torno da palavra homem

  1. À procura de uns excertos de Albert Camus, vim parar aqui.
    Um excelente acaso – parabéns pelos poemas que vais colocando aqui.

    Maggy

  2. realmente me fez pensar em poesia,

  3. uma obra prima da reflexão filosófica em torno do sentido da vida. Este é um poema que só tem como rival o “José”.

  4. Bom Dia!
    Já interpretei esta Poesia de Carlos Drumond de Andrade a mais de dez anos passados no Festival de Poesias Fernando Pessoa da Escola da Vila, realizado de dois em dois anos..
    Vou interpreta-la amanhã sabado Dia 20/11/2010 na Viladacultural. Um Projeto do Gremio dos alunos da Escola da Vila.
    Estou muito honrada de poder participar e interpretar esta Grande poesia interrogativa sobre o Homem?
    Beijos a todos;
    Median Aurea

  5. VIVA O POETA CARLOS DRUMMOND!! DIA 31 DE OUTUBRO, DATA DE SEU ANIVERSÁRIO, É O DIA D. PARTICIPEM.

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