Especulações em torno da palavra homem

24 12 2007

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Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?

um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?

Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?

E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta

nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?

Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen

brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes

de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai

e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?

Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?

Vale menos morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem

é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a?

Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?

Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem

consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono

que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?

Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?

Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?

Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas

e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é homem?

Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata

com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?

Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?

Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?

E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?

Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?

Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?

Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?

Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?

Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?

Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?

Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?

Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?

E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?

Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?

Poesia Completa de Carlos Drummond de Andrade, p. 428 (Nova Aguilar)





Amor como virtude

22 12 2007
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Não amamos o que queremos, mas o que desejamos, mas o que amamos e que não escolhemos. Como poderíamos escolher nossos desejos ou nossos amores, se só podemos escolher em função deles? O amor não se comanda e não poderia, em consequência, ser um dever. Devemos dizer também que virtude e dever são duas coisas diferentes (o dever é uma coerção, a virtude, uma liberdade). O dever é uma coerção, o dever é uma tristeza, ao passo que o amor é uma espontaneidade alegre. “O que fazemos por coerção”, escreve Kant, “não fazemos por amor”.

André Comte-Sponville, Pequeno tratado das grandes virtudes, p. 241 (Martins Fontes)





Ego.

21 12 2007

Neque ego ipse capio totum quod sum

Nem eu mesmo compreendo tudo o que sou.

Santo Agostinho

Julián Mariás, A felicidade humana, p. 274 (Duas Cidades)





O que permanece?

20 12 2007

Qual é a essência que persiste no decorrer da mudança?
(Heráclito)

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Françoise Kourilsky-Belliard. Do desejo ao prazer de mudar, p. 3 (Manole)





Em busca de si.

19 12 2007
A descoberta de si se realiza em contínuos exames, uns mais, outros menos reveladores, nenhum desprezível. Esses exames significam perguntar-se principalmente se quem o faz está vivendo a vida que deseja, se sua vontade interior está prevalecendo sobre a dos outros, se seus objetivos estão sendo alcançados, se seus amigos são verdadeiros. Porque quem não examina a sua vida com persistência e coragem, modificando-lhe os rumos quando causam mais sofrimento que alegria, está condenado a extinguir-se sem nada acrescentar à fatalidade da decadência biológica.
J. C. Ismael. Sócrates e a arte de viver, pp. 71-2 (Ágora)




Não se leve tão a sério.

16 12 2007

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Aquele que não se leva a sério deve estar entre os mais sábios dos sábios, e, como tal, vive a vida com suprema dignidade. Não se levar a sério significa questionar constantemente os próprios valores, trocando-os por outros sempre que isso possa enriquecer o conhecimento, mas significa principalmente encarar a vida com humor, transmitindo-o aos que o cercam como antídoto para os inevitáveis problemas do cotidiano. As pessoas mais sábias são as que se conhecem profundamente. Quanto mais instruída é uma pessoa, menos a sério ela se leva, porque o conhecimento descoberto e adquirido torna nítidas a efemeridade de todas as coisas, a luta insana pela posse de bens materiais e a busca obsessiva da satisfação dos sentidos.

 

J. C. Ismael. Sócrates e a arte de viver, p. 87 (Ágora)





Por nós.

13 12 2007

Devemos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos para termos a vida que espera por nós.

Joseph Campbell

Michael Flocker, Manual do Hedonista, pg. 85 (Rocco)





Realização?

11 12 2007

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O núcleo da idéia de felicidade que vai dominando em nossa época e que se expressa na noção de bem-estar é a realização. Isto é novo, porque a felicidade foi sempre um ideal, algo que o homem busca, com maior ou menor esperança de alcança-la, evidentemente problemática, às vezes com a segurança de ser algo inacessível. Há um razoamento implícito, que não se formula, mas subjaz à interpretação atual, e que poderia expressar-se assim: se a felicidade é impossível, chamemos felicidade a algo possível. A preferência coletiva de nosso tempo se encaminha para algo possível, realizável.

Poder-sei-ia dizer: isso que se chama felicidade é certamente possível; o mal é que não é felicidade. Porém tem vigência; quer dizer, “passa” por felicidade, “vale” por felicidade. E deve-se perguntar o que acontece com a noção mesma de felicidade, e com a atitude do homem face a ela.

Julián Mariás, A felicidade humana, p. 174 (Duas Cidades)





A correspondência.

11 12 2007

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As pessoas se escrevem porque não podem se falar: o mais das vezes por causa da distância, da separação, de um espaço que as falas não podem transpor.

Esse foi durante séculos o único meio de dirigir-se aos ausentes, de levar o pensamento aonde o corpo não podia ir, aonde a voz não podia ir, e talvez esse seja o mais belo presente que a escrita deu aos viventes: permitir-lhes vencer o espaço, vencer a separação, sair da prisão do corpo, ao menos um pouco, ao menos pela linguagem.

Escrevemos nossas cartas para habitarmos juntos, tanto quanto pudermos, apesar da separação, apesar do espaço, o pouco tempo que nos é dado em comum, para compartilhar alguma coisa, um acontecimento, ou um pensamento, uma emoção ou um sorriso, muitas vezes quase nada e esse é o essencial de nossas vidas, para compartilhar essa pobreza que somos, que vivemos, que nos faz e desfaz, antes que a morte nos pegue, para não renunciar, enquanto respiramos e sejam quais forem os quilômetros que nos separam, à doçura de viver juntos, em todo caso ao mesmo tempo, à doçura de compartilhar e de amar. Contemporâneos da mesma eternidade, que é hoje. Passantes da mesma passagem, que é o mundo.

Escrevo-te para dizer-te que te amo, ou que penso em ti, que me alegro, sim, de ser teu contemporâneo, de habitar o mesmo mundo, o mesmo tempo, de só estar separado de ti pelo espaço, não pelo coração, não pelo pensamento, não pela morte.

A escrita nasce da impossibilidade da fala, de sua dificuldade, de seus limites, de seu fracasso.

Por que escrever quando se pode falar-se, quando se fala efetivamente? Porque nem sempre se pode falar, nem de tudo, porque a fala pode criar obstáculo para a comunicação, por vezes, ou condená-la à tagarelice, porque é preciso ter tempo de ficar sozinho, porque é doce pensar no outro em sua ausência, ainda que se deva vê-lo no dia seguinte, dizer-lhe o lugar que ocupa em nossa vida, mesmo quando ele não está presente, em nosso coração, em nossa solidão.

Nossas cartas se parecem conosco, desde que o queiramos um pouco, e mesmo, às vezes, quando não o queremos. Frágeis como nós. Irrisórias como nós. Bela por vezes. Pobres e preciosas, corriqueiras e singulares, quase sempre. Um pouco de nossa alma introduziu-se ali, na pouca espessura de um envelope. Um pouco de nossa vida, na loucura do mundo. Um pouco do nosso amor, no deserto das cidades.

Por que se escreve uma carta? para habitarmos juntos a essencial solidão, a essencial separação, a essencial e comum fragilidade. Para descrever o tempo que está fazendo, o tempo que está passando. Para contar o que nos tornamos, o que somos, o que esperamos. Para exprimir a distância, sem a suprimir. O silêncio, sem o corromper. O eu, sem se fechar nele.

André Comte-Sponville, Bom Dia, Angústia!, do ensaio “A Correspondência”, pp. 35-44. excertos adaptados (Martins Fontes)





Eu.

11 12 2007

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O gosto de minha morte na boca deu-me perspectiva e coragem.
O importante é a coragem de ser eu mesmo.

Friedrich Nietzsche





A vida, segundo Alain

8 12 2007

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A vida é boa acima de tudo; é boa por si mesma; o raciocínio nada conta para isso. Não se é feliz por viagem, riqueza, sucesso, prazer. É-se feliz porque se é feliz. A felicidade é o sabor mesmo da vida. Como o morango tem gosto de morango, assim a vida tem gosto de felicidade. O sol é bom; a chuva é boa; todo ruído é música. Ver, ouvir, cheirar, saborear, tocar não é mais do que uma sucessão de felicidades. Mesmo os pesares, mesmo as dores, mesmo o cansaço, tudo isso tem um sabor de vida. Existir é bom; não melhor do que outra coisa; pois existir é tudo, e não existir não é nada. Agir é uma alegria. Perceber é uma alegria também. Não somos condenados a viver; vivemos avidamente. Queremos ver, tocar, julgar; queremos descobrir o mundo. Viver é querer viver. Qualquer vida é um canto de regozijo.

 

André Comte-Sponville, Bom dia, angústia!, p. 45-6 (Martins Fontes)





A vida, segundo Fichte

8 12 2007

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A vida é necessariamente feliz, pois é a felicidade; a idéia de uma vida infeliz, pelo contrário, encerra uma contradição. Infeliz é só a morte. A vida é ela mesma a felicidade. Não pode ser de outro modo, pois a vida é amor, e toda a forma e força da vida consiste no amor e brota do amor. O amor é além disso contentamento consigo mesmo, alegria de si mesmo, gozo de si mesmo, e assim felicidade; e portanto é claro que vida, amor e felicidade são em absoluto uma e a mesma coisa.

 

Julián Marías, A Felicidade Humana, p. 134 (Duas Cidades)





Tenho saudade de mim mesmo.

7 12 2007

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Tenho saudade de mim mesmo,
saudade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só.

Estrambote Melancólico,

Poesia Completa de Carlos Drummond de Andrade, p. 407 (Nova Guilar)





Eterno.

7 12 2007

A cada instante se criam novas categorias do eterno.

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.

Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
essência ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma
esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

Eterno.

Poesia Completa de Carlos Drummond de Andrade, pp. 408-9 (Nova Guilar)





Mesma noite.

7 12 2007

Em toda parte ele viveria na mesma noite escura.

Albert Cossery, As cores da infâmia, pg. 49 (Conrad)