E isto acima de tudo:

30 11 2007

 

 

Sê sincero contigo mesmo e disto se seguirá, como a noite segue o dia, que não poderás ser falso com quem quer que seja.

William Shakespeare, Tragédias, Hamlet, p. 217 (Abril)





Do curso das coisas.

30 11 2007

É possível represar um riacho na fonte,
Com uma enxada.
Mas quando seu leito se alarga
E as águas crescem
É impossível atravessá-lo,
Mesmo nas costas de um elefante.

Saadi de Shiraz, Gulistan, O Jardim das Rosas, p. 37 (Attar Editorial)





Sonhar.

30 11 2007

Os sonhos, ao que parece, são tanto maiores quanto menor o espaço em que o sonhador está. Como diz Yanette Delétang-Tardif: “O ser mais fechado é gerador de ondas

De alguma leitura perdida de Gaston Bachelard





Confissão.

29 11 2007

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Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

Poesia Completa de Mário Quintana, p. 899 (Nova Aguilar)





O homem e a água

28 11 2007

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Deixa-me ser o que sou,
o que sempre fui,
um rio que vai fluindo.
E o meu destino é seguir…seguir para o mar.
O mar onde tudo recomeça…
Onde tudo se refaz…

Poesia Completa de Mário Quintana, p. 916 (Nova Aguilar)





Hoje é outro dia

28 11 2007

Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova…

Poesia Completa de Mário Quintana, p. 855 (Nova Aguilar)





Destino.

27 11 2007

O Destino embaralha as cartas, e nós jogamos.

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Arthur Schopenhauer, Aforismos sobre a sabedoria de vida.





Eu não sei dizer.

27 11 2007

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É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é o que eu sinto mas o que eu digo. Sinto quem sou e a impressão está alojada na parte alta do cérebro, nos lábios – na língua principalmente – , na superfície dos braços e também correndo dentro, bem dentro do meu corpo, mas onde, onde mesmo, eu não sei dizer.

 

Clarice Lispector. Perto do coração selvagem, p.21 (Rocco)





Der Steppenwolf

27 11 2007

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Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo e com sua própria vida. Era incapaz disso, daí ser um homem descontente. Isso provinha, decerto, do fato de que, no fundo de seu coração, sabia sempre (ou julgava saber) que não era realmente um homem e sim um lobo das estepes.

Nele o homem e o lobo não caminhavam juntos, nem sequer se ajudavam mutuamente, mas permaneciam em contínua e mortal inimizade e um vivia apenas para causar dano ao outro, e quando há dois inimigos mortais num mesmo sangue e na mesma alma, então a vida é uma desgraça. Bem, cada qual tem seu fado, e nenhum deles é leve.

Não se pode negar que fosse, em geral, muito infeliz, e podia também fazer os outros infelizes, especialmente quando os queria ou era por eles estimado. Pois todos os que com ele se deram viram apenas uma das partes de seu ser. Muitos o estimaram por ser uma pessoa inteligente, refinada e arguta, e mostraram-se horrorizados e desapontados quando descobriam o lobo que morava nele.

Muita gente existe que se assemelha a ele, especialmente muitos artistas pertencem a essa classe de homens. Todas essas pessoas têm duas almas, dois seres em seu interior; há neles uma parte divina e uma satânica, há sangue materno e paterno, há capacidade para a ventura e para a desgraça, tão contrapostas e hostis como eram o lobo e o homem dentro dele. E esses homens, para os quais a vida não oferece repouso, experimentam às vezes, em seus raros momentos de felicidade, tanta força e tão indizível beleza, a espuma do instante de ventura emerge às vezes tão alta e deslumbradora sobre o mar da dor, que sua luz, espargindo radiância, vai atingir a outros com o seu encantamento.

Nem mesmo com o suicídio, pobre Lobo da Estepe, te livrarás realmente das dificuldades; tens de percorrer o caminho mais largo, mais penoso e mais difícil da humana encarnação; frequentemente terás de multiplicar a tua multiplicidade, complicar ainda mais a tua complexidade. Em vez de reduzir o teu mundo, de simplificar a tua alma, terás de recolher cada vez mais mundo, de recolher no futuro o mundo inteiro na tua alma dolorosamente dilatada, para chegar talvez algum dia ao fim, ao descanso.

Hermann Hesse. O lobo da estepe, pp.46-69 (Record/Altaya)





Como?

27 11 2007

Não compreendo o meu espírito – como através dele compreender?

Fernando Pessoa. Livro do Desassossego, p. 330 (Companhia das Letras)





I, Robot

26 11 2007

Os humanos modernos são máquinas e sua mecanicidade vem do fato de não estarem conscientes.

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John Gray, Cachorros de palha (Record)





Do supérfluo

26 11 2007

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Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.
O esboço tão-somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.

Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.
No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr-do-sol
à hora em que o amor se foi?
Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas — todavia supérfluas —
do meu intransferível patrimônio?

Henriqueta Lisboa, Pousada do Ser (1982)





Entre uma noite e outra noite

26 11 2007

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Não sei que sentido tem esta viagem que fui forçado a fazer, entre uma noite e outra noite, na companhia do universo inteiro. Sei que posso ler para me distrair. Considero a leitura como o modo mais simples de entreter esta, como outra, viagem; e, de vez em quando, ergo os olhos do livro onde estou sentindo verdadeiramente, e vejo, como estrangeiro, a paisagem que foge – campos, cidades, homens e mulheres, afeições e saudades – , e tudo isso não é mais para mim do que um episódio do meu repouso, uma distração inerte em que descanso os olhos das páginas demasiado lidas.

 

Fernando Pessoa. Livro do Desassossego, p. 320 (Companhia das Letras)





Para onde?

26 11 2007

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Por que é feia a vida? Porque é toda fins e propósitos e intenções. Todos os seus caminhos são para ir de um ponto para o outro. Quem nos dera o caminho feito de um lugar donde ninguém parte para um lugar para onde ninguém vai!

 

Fernando Pessoa. Livro do Desassossego, p. 308 (Companhia das Letras)





Pouco.

25 11 2007

O que me resta é pouca coisa, mas se mantém firme.

Gustave Flaubert, Cartas Exemplares, p. 39 (Imago)