Eu mesmo.

Maio 15, 2008 - No Responses

Todo homem tem direito às dúvidas. Sábios e loucos, santos e pecadores, todos cultivam as mesmas perplexidades, de onde vim, quem sou eu, para onde vou. Como se não bastassem essas dúvidas, às quais todos têm direito, eu tenho cá outro tipo de dúvida mais estúpida e cruel: a de não ser eu mesmo.

Carlos Heitor Cony, O indigitado (Objetiva)

O verbo no infinito.

Maio 14, 2008 - No Responses

Olhar bem para as coisas que
de repente
deixaremos de ver para sempre.

Aníbal M. Machado, A arte de viver e outras artes: Cadernos de João, ensaios, crítica dispersa, auto-retratos (Graphia, pg. 9)

Como a morte se infiltra.

Maio 14, 2008 - No Responses

Certo dia, não se levanta,
porque quer demorar na cama.

No outro dia ele diz por quê:
é porque lhe dói algum pé.

No outro dia o que dói é a perna,
E nem pode apoiar-se nela.

Dia a dia lhe cresce um não,
um enrodilhar-se de cão.

Dia a dia ele aprende o jeito
em que menos lhe pesa o leito.

Um dia faz fechar as janelas:
dói-lhe o dia lá fora delas.

Há um dia em que não se levanta:
deixa-o para a outra semana,

outra semana sempre adiada,
que ele não vê por que apressá-la.

Um dia passou vinte e quatro horas
incurioso do que é de fora.

Outro dia já não distinguiu
noite e dia, tudo é vazio.

Um dia, pensou: respirar,
eis um esforço que se evitar.

Quem deixou-o, a respiração?
Muda de cama. Eis seu caixão.

João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra e depois
(Nova Fronteira, p. 268-9)

Habitar o tempo.

Maio 14, 2008 - No Responses

Para não matar seu tempo, imaginou:
vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
no instante finíssimo em que ocorre,
em ponta de agulha e porém acessível;
viver seu tempo: para o que ir viver
num deserto literal ou de alpendres;
em ermos, que não distraiam de viver
a agulha de um só instante, plenamente.
Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
habitá-lo, na agulha de cada instante,
em cada agulha instante: e habitar nele
tudo o que habitar cede ao habitante.

E de volta de ir habitar seu tempo:
ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
e como além de vazio, transparente,
o instante a habitar passa invisível.
Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
matar o tempo, enchendo-o de coisas;
em vez do deserto, ir viver nas ruas
onde o enchem e o matam as pessoas;
pois como o tempo ocorre transparente
e só ganha corpo e cor com seu miolo
(o que não passou do que lhe passou),
para habitá-lo: só no passado, morto.

João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra e depois
(Nova Fronteira, p. 37)

A vida, segundo Fausto Wolff

Maio 7, 2008 - No Responses

Às vezes
as coisas se arranjam,
outras, não.
Por que culpar o coração?

Fausto Wolff, do poema “Vida”, do livro “Cem poemas de amor”, (Bertrand Brasil, pg. 15)

A vida, segundo Miguel Torga.

Maio 4, 2008 - No Responses

Mas a vida era a vida, e tudo mudou.

Miguel Torga, A Criação do Mundo, (Nova Fronteira, pg. 87)

A vida, segundo Ítalo Svevo.

Abril 30, 2008 - No Responses

A vida é assim: é necessário antes implorar para ter as coisas e depois rosnar para conservá-las.

Do conto “Argo e seu dono“, de Ítalo Svevo (Berlendis & Vertecchia Editores, pg. 30)

Sinta.

Abril 29, 2008 - No Responses

Eu uso todos os meus sentidos, o tempo todo.

Jo-Ellan Dimitrius e Mark Mazzarella, Decifrar pessoas, como entender e prever o comportamento humano, pg. 7 (Alegro)

Perda.

Abril 9, 2008 - 4 Responses

O que significa a perda
quando a pessoa se encontra
em seu próprio mundo?

Friedrich Hölderlin, Hipérion, pg 20 (Nova Alexandria)

Sísifo.

Abril 8, 2008 - No Responses

Não existem esforços inúteis, Sísifo ganhava músculos.

R. Callois (ensaísta francês, nascido em 1913), Circonstancielles

Mito de Sísifo

“Por toda a eternidade Sísifo foi condenado a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível. Por esse motivo, a tarefa que envolve esforços inúteis passou a ser chamada “Trabalho de Sísifo”.

Adiante.

Março 27, 2008 - No Responses

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Quando chegares ao cume de uma montanha, segue subindo.

Provérbio Zen

 

Toda felicidade é uma obra-prima.

Março 25, 2008 - One Response

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Toda felicidade é uma obra-prima: o menor erro a deturpa, a menor hesitação a altera, a menor deselegância a estraga, a menor tolice a embrutece.

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

Dos desejos do coração.

Março 25, 2008 - No Responses

A ti, ventre, louvo, porque te satisfazes com alguns legumes; mas não a ti, coração maldito, que não te contentas nem com centenas de desejos!

Çantiçataka (sentenças ascéticas indianas, séc. XI), I, 24

As mentiras que contamos.

Março 23, 2008 - No Responses

Pode ser que, no final, até mesmo as mentiras que contamos nos definam; e, algumas delas, muito melhor do que nossas melhores tentativas de alcançar a verdade.

David Malouf, do romance Johnno, in: J. A. Barnes. Um monte de mentiras, para uma sociologia da mentira, pg. 27 (Papirus).

Sábado.

Março 22, 2008 - No Responses
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