
Todo homem tem direito às dúvidas. Sábios e loucos, santos e pecadores, todos cultivam as mesmas perplexidades, de onde vim, quem sou eu, para onde vou. Como se não bastassem essas dúvidas, às quais todos têm direito, eu tenho cá outro tipo de dúvida mais estúpida e cruel: a de não ser eu mesmo.
Carlos Heitor Cony, O indigitado (Objetiva)
Categorised in Identidade
Olhar bem para as coisas que
de repente
deixaremos de ver para sempre.
Aníbal M. Machado, A arte de viver e outras artes: Cadernos de João, ensaios, crítica dispersa, auto-retratos (Graphia, pg. 9)
Categorised in Olhar, Poesia and Tempo

Certo dia, não se levanta,
porque quer demorar na cama.
No outro dia ele diz por quê:
é porque lhe dói algum pé.
No outro dia o que dói é a perna,
E nem pode apoiar-se nela.
Dia a dia lhe cresce um não,
um enrodilhar-se de cão.
Dia a dia ele aprende o jeito
em que menos lhe pesa o leito.
Um dia faz fechar as janelas:
dói-lhe o dia lá fora delas.
Há um dia em que não se levanta:
deixa-o para a outra semana,
outra semana sempre adiada,
que ele não vê por que apressá-la.
Um dia passou vinte e quatro horas
incurioso do que é de fora.
Outro dia já não distinguiu
noite e dia, tudo é vazio.
Um dia, pensou: respirar,
eis um esforço que se evitar.
Quem deixou-o, a respiração?
Muda de cama. Eis seu caixão.
João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra e depois
(Nova Fronteira, p. 268-9)
Categorised in Dor/Sofrimento, Escolhas, Morte, Noite, Poesia, Solidão, Tempo, Tédio and Vida
Para não matar seu tempo, imaginou:
vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
no instante finíssimo em que ocorre,
em ponta de agulha e porém acessível;
viver seu tempo: para o que ir viver
num deserto literal ou de alpendres;
em ermos, que não distraiam de viver
a agulha de um só instante, plenamente.
Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
habitá-lo, na agulha de cada instante,
em cada agulha instante: e habitar nele
tudo o que habitar cede ao habitante.
E de volta de ir habitar seu tempo:
ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
e como além de vazio, transparente,
o instante a habitar passa invisível.
Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
matar o tempo, enchendo-o de coisas;
em vez do deserto, ir viver nas ruas
onde o enchem e o matam as pessoas;
pois como o tempo ocorre transparente
e só ganha corpo e cor com seu miolo
(o que não passou do que lhe passou),
para habitá-lo: só no passado, morto.
João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra e depois
(Nova Fronteira, p. 37)
Categorised in Poesia, Tempo and Vida
Às vezes
as coisas se arranjam,
outras, não.
Por que culpar o coração?
Fausto Wolff, do poema “Vida”, do livro “Cem poemas de amor”, (Bertrand Brasil, pg. 15)
Categorised in Ceticismo, Poesia, Questões and Vida

Mas a vida era a vida, e tudo mudou.
Miguel Torga, A Criação do Mundo, (Nova Fronteira, pg. 87)
Categorised in Destino/Futuro, Escolhas and Vida
A vida é assim: é necessário antes implorar para ter as coisas e depois rosnar para conservá-las.
Do conto “Argo e seu dono“, de Ítalo Svevo (Berlendis & Vertecchia Editores, pg. 30)
Categorised in Felicidade and Vida
Eu uso todos os meus sentidos, o tempo todo.
Jo-Ellan Dimitrius e Mark Mazzarella, Decifrar pessoas, como entender e prever o comportamento humano, pg. 7 (Alegro)
Categorised in Identidade, Verdade, Vida and Íntimo & Pessoal
O que significa a perda
quando a pessoa se encontra
em seu próprio mundo?
Friedrich Hölderlin, Hipérion, pg 20 (Nova Alexandria)
Categorised in Escolhas and Questões

Não existem esforços inúteis, Sísifo ganhava músculos.
R. Callois (ensaísta francês, nascido em 1913), Circonstancielles
Mito de Sísifo
“Por toda a eternidade Sísifo foi condenado a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível. Por esse motivo, a tarefa que envolve esforços inúteis passou a ser chamada “Trabalho de Sísifo”.
Categorised in Ceticismo, Dor/Sofrimento and Felicidade

Quando chegares ao cume de uma montanha, segue subindo.
Provérbio Zen
Categorised in Destino/Futuro, Escolhas, Felicidade, Filosofia and Preceitos

Toda felicidade é uma obra-prima: o menor erro a deturpa, a menor hesitação a altera, a menor deselegância a estraga, a menor tolice a embrutece.
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano
Categorised in Arte and Felicidade
A ti, ventre, louvo, porque te satisfazes com alguns legumes; mas não a ti, coração maldito, que não te contentas nem com centenas de desejos!
Çantiçataka (sentenças ascéticas indianas, séc. XI), I, 24
Categorised in Ceticismo, Desejo and Felicidade
Pode ser que, no final, até mesmo as mentiras que contamos nos definam; e, algumas delas, muito melhor do que nossas melhores tentativas de alcançar a verdade.
David Malouf, do romance Johnno, in: J. A. Barnes. Um monte de mentiras, para uma sociologia da mentira, pg. 27 (Papirus).
Categorised in Identidade, Política, Verdade and Ética
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