Onde está o real humano? Nas ficções que o constituem. Dizer que um mundo é humano é dizer que ele está todo impregnado de ficções. – Nancy Houston
Despertou e olhou para vidas inúmeras. Tudo se confirmava. A Realidade criada por Ele o entediava terrivelmente. Tudo estava em seu lugar apropriado, conforme as regras que Ele mesmo criara. Estava preso na Perfeição. Para mudar qualquer coisa teria que recomeçar tudo, destruindo tudo. Ele sabia, no Princípio Perfeito, que isso jamais seria feito, nele olhara para o futuro. Nada mudaria, nem mesmo o Seu destino. O que o assemelhava aos humanos era que Ele também precisava viver o que planejara no Princípio, e embora o tédio tivesse sido previsto, Deus, naquele despertar, descobriu que não sabia o que estava acontecendo com Ele mesmo. Algo dentro da Realidade estava se voltando contra Ele e tirando Dele o necessário para contradizê-lo e contrariá-lo. Nas Suas profundezas, estava despertando o Desconhecido, uma invenção Sua para as mentes humanas, mas não para a Sua própria. O que Ele não entendia, era como o que estava acontecendo com Ele não tinha sido previsto e como Ele, onipotente, não conseguia subjugar o que acontecia. Desde que criara a Si próprio, por toda a eternidade, era a primeira vez que Deus estava confuso. Por isso aquele dia era um dia especial. E foi por isso que Ele decidiu descer à terra e procurar alguém para conversar.
Fazia dois milênios que Deus não se dirigia diretamente a alguém, daí então o susto de Dinorá quando aquele senhor de barbas longas e camisola branca esvoaçante bateu na sua porta, sem pôr os pés no chão. Dinorá entendeu de quem se tratava assim que o viu, porque o Senhor fala por meios misteriosos. Convidou-o para entrar e se sentou para Ouví-lo. Deus disse, “Minha filha, de todas as vidas criadas por mim, a tua é das mais desconcertantes. Não me leve a mal, mas houve um Princípio em que você foi criada com todas as coisas e nele foi escrito que sua vida seria cheia de atribulações. Isso aconteceu no Grande Sorteio. Foi o modelo de justiça que encontrei e o mais democrático – acredite, eu era realmente jovem. Eu te escolhi, portanto, por isso. O que quero saber, é o que é preciso ser feito para resolver a confusão crescente dentro de mim, que tem afetado o meu estado de ânimo. Tudo tem me entediado e, ao despertar no dia de hoje, me vi jogado por mim mesmo no Infinito Mais Profundo Aonde Nada Se Move – creio que é o que vocês humanos chamam de depressão grave. Ah, e antes que você tente, não adianta rezar por mim, eu estou bem aqui e não pretendo voltar até encontrar respostas humanas, já que vocês são imperfeitos, e até ontem, eu era exemplo de perfeição.”
Foi uma primeira apresentação e tanto, e Dinorá não gostou nada Dele. Deus podia ler isso em Dinorá, mas achou melhor guardar isso para si. “Vossa Excelência”, falou finalmente Dinorá, depois de uma longa pausa, “o que eu tenho feito toda a minha vida para resolver as minhas atribulações é dobrar os joelhos e rezar. Sua Majestade não tem para quem rezar?” Deus ficou calado com a esperteza de Dinorá. Silenciou-se por uma eternidade, era o seu modo de tomar decisões, e não estava acostumado a tomar novas decisões desde o Princípio Perfeito. Dinorá continuou, “também não me leve a mal, Sua Santidade, mas eu rezo porque é preciso ter fé. Me diga, eu tenho fé no Senhor, e o Senhor? Tem fé em quem?”. Novo silêncio Dele, ainda mais eterno. “Eu acredito ter fé na Humanidade, Dinorá”, disse Deus, e baixou a cabeça, ligeiramente constrangido. Dinorá, sendo como era, desde o Princípio Perfeito, decidiu por uma ousadia e sentou ao lado Dele, pousando sua mão direita em seu ombro, e olhando seriamente para olhos mais azuis do que os do Frank Sinatra, “passe mais tempo conosco então, cara. Tem muito trabalho pra fazer aqui e as pessoas estão realmente confusas com o propósito de suas vidas. Você não está com a sua? O que me diz?”.
Foi por causa deste dia que Deus se mudou para a casa de Dinorá, muito respeitosamente, e a partir dele podia ser visto saindo com uma pastinha a tiracolo todos os dias, para batalhar contra o Princípio Perfeito.
Como último comentário, e sendo algo muitíssimo caro a observar, Dinorá já era uma senhora quando recebeu a visita Dele, portanto não levou muitos anos para que viesse a falecer. Por ordens diretas do Chefe, foi canonizada pela Santa Igreja Católica, e sua casa virou lugar de peregrinação, obrigando Deus a alugar uma casa de três cômodos onde montou Seu escritório perto de uma casa lotérica, uma de Suas maiores diversões, depois que admitiu, afinal, que não sabia de tudo. Aliás, desde o Princípio Perfeito.
Por Alexandre Magno da Silva













