37 – Um novo dia na vida de Deus

Onde está o real humano? Nas ficções que o constituem. Dizer que um mundo é humano é dizer que ele está todo impregnado de ficções. – Nancy Houston

Despertou e olhou para vidas inúmeras. Tudo se confirmava. A Realidade criada por Ele o entediava terrivelmente. Tudo estava em seu lugar apropriado, conforme as regras que Ele mesmo criara. Estava preso na Perfeição. Para mudar qualquer coisa teria que recomeçar tudo, destruindo tudo. Ele sabia, no Princípio Perfeito, que isso jamais seria feito, nele olhara para o futuro. Nada mudaria, nem mesmo o Seu destino. O que o assemelhava aos humanos era que Ele também precisava viver o que planejara no Princípio, e embora o tédio tivesse sido previsto, Deus, naquele despertar, descobriu que não sabia o que estava acontecendo com Ele mesmo. Algo dentro da Realidade estava se voltando contra Ele e tirando Dele o necessário para contradizê-lo e contrariá-lo. Nas Suas profundezas, estava despertando o Desconhecido, uma invenção Sua para as mentes humanas, mas não para a Sua própria. O que Ele não entendia, era como o que estava acontecendo com Ele não tinha sido previsto e como Ele, onipotente, não conseguia subjugar o que acontecia. Desde que criara a Si próprio, por toda a eternidade, era a primeira vez que Deus estava confuso. Por isso aquele dia era um dia especial. E foi por isso que Ele decidiu descer à terra e procurar alguém para conversar.

Fazia dois milênios que Deus não se dirigia diretamente a alguém, daí então o susto de Dinorá quando aquele senhor de barbas longas e camisola branca esvoaçante bateu na sua porta, sem pôr os pés no chão. Dinorá entendeu de quem se tratava assim que o viu, porque o Senhor fala por meios misteriosos. Convidou-o para entrar e se sentou para Ouví-lo. Deus disse, “Minha filha, de todas as vidas criadas por mim, a tua é das mais desconcertantes. Não me leve a mal, mas houve um Princípio em que você foi criada com todas as coisas e nele foi escrito que sua vida seria cheia de atribulações. Isso aconteceu no Grande Sorteio. Foi o modelo de justiça que encontrei e o mais democrático – acredite, eu era realmente jovem. Eu te escolhi, portanto, por isso. O que quero saber, é o que é preciso ser feito para resolver a confusão crescente dentro de mim, que tem afetado o meu estado de ânimo. Tudo tem me entediado e, ao despertar no dia de hoje, me vi jogado por mim mesmo no Infinito Mais Profundo Aonde Nada Se Move – creio que é o que vocês humanos chamam de depressão grave. Ah, e antes que você tente, não adianta rezar por mim, eu estou bem aqui e não pretendo voltar até encontrar respostas humanas, já que vocês são imperfeitos, e até ontem, eu era exemplo de perfeição.”

Foi uma primeira apresentação e tanto, e Dinorá não gostou nada Dele. Deus podia ler isso em Dinorá, mas achou melhor guardar isso para si. “Vossa Excelência”, falou finalmente Dinorá, depois de uma longa pausa, “o que eu tenho feito toda a minha vida para resolver as minhas atribulações é dobrar os joelhos e rezar. Sua Majestade não tem para quem rezar?” Deus ficou calado com a esperteza de Dinorá. Silenciou-se por uma eternidade, era o seu modo de tomar decisões, e não estava acostumado a tomar novas decisões desde o Princípio Perfeito. Dinorá continuou, “também não me leve a mal, Sua Santidade, mas eu rezo porque é preciso ter fé. Me diga, eu tenho fé no Senhor, e o Senhor? Tem fé em quem?”. Novo silêncio Dele, ainda mais eterno. “Eu acredito ter fé na Humanidade, Dinorá”, disse Deus, e baixou a cabeça, ligeiramente constrangido. Dinorá, sendo como era, desde o Princípio Perfeito, decidiu por uma ousadia e sentou ao lado Dele, pousando sua mão direita em seu ombro, e olhando seriamente para olhos mais azuis do que os do Frank Sinatra, “passe mais tempo conosco então, cara. Tem muito trabalho pra fazer aqui e as pessoas estão realmente confusas com o propósito de suas vidas. Você não está com a sua? O que me diz?”.

Foi por causa deste dia que Deus se mudou para a casa de Dinorá, muito respeitosamente, e a partir dele podia ser visto saindo com uma pastinha a tiracolo todos os dias, para batalhar contra o Princípio Perfeito.

Como último comentário, e sendo algo muitíssimo caro a observar, Dinorá já era uma senhora quando recebeu a visita Dele, portanto não levou muitos anos para que viesse a falecer. Por ordens diretas do Chefe, foi canonizada pela Santa Igreja Católica, e sua casa virou lugar de peregrinação, obrigando Deus a alugar uma casa de três cômodos onde montou Seu escritório perto de uma casa lotérica, uma de Suas maiores diversões, depois que admitiu, afinal, que não sabia de tudo. Aliás, desde o Princípio Perfeito.

Por Alexandre Magno da Silva

Estrela

Escutai! Se as estrelas se acendem
será por que alguém precisa delas?
Por que alguém as quer lá em cima?
Será que alguém por elas clama,
por essas cuspidelas de pérolas?
Ei-lo aqui, pois, sufocado, ao meio-dia,
no coração dos turbilhões de poeira;
ei-lo, pois, que corre para o bom Deus,
temendo chegar atrasado,
e que lhe beija chorando
a mão fibrosa.
Implora! Precisa absolutamente
duma estrela lá no alto!
Jura! Que não poderia mais suportar
essa tortura de um céu sem estrelas!
Depois vai-se embora,
atormentado, mas bancando o gaiato
e diz a alguém que passa:
“Muito bem! Assim está melhor agora, não é?
Não tens mais medo, hein?

“Escutai, pois! Se as estrelas se acendem
é porque alguém precisa delas.
É porque, em verdade, é indispensável
que sobre todos os tetos, cada noite,
uma única estrela, pelo menos, se alumie.

MAIAKÓVSKI  em tradução de E. Carrera Guerra

36 – O Instante

A areia na praia pressente quando a água lhe vem tocar.
- J. A. Carrascoza


Calado ficou. No instante. E o instante o prendeu, como a um inseto em âmbar. Não podia se mover além do alcance do olhar e o momento repentino lhe causou surpresa além da expressão. Alegria sentiu. Um estremecimento. A pele de tudo o que o cercava podia ser atravessada facilmente com todos os sentidos e além deles um sentimento complexo e profundo. E por fora, e por dentro de todas as coisas animadas e inanimadas, havia uma luz que pulsava incessantemente como uma estrela distante que se observa com cuidado. Calado como quem faz amor no escuro e se prende no ritmo da respiração para não perder uma gota do precioso instante em que o gozo é compartilhado repentinamente apenas pelo prazer de o sustentar, equilibrar e amortecer até as franjas dos lençois. Um instante que finalmente se apreendeu muito além da mais ordinária epifania. Eis o verdadeiro silêncio e a mais espessa mudez. Era como comungava a própria travessia quando o esgotamento espargia-se da última fronteira da alma. Era o que entendia por espiritualidade. E era o amor devotado que tinha pelas coisas que já não eram mais.

Por Alexandre Magno da Silva

No ventre de um raio.

Imagem

Vivemos num mundo fechado e mesquinho. Não sentimos o mundo em que vivemos tal como não sentimos a roupa que trazemos vestida. Voamos pelo mundo como as personagens de Júlio Verne através do espaço cósmico no ventre de um raio. Mas o nosso raio não tem janelas.

Os pitagóricos afirmavam que não ouvimos a música das esferas porque toca incessantemente. Aqueles que vivem perto do mar não ouvem o rumor das ondas, mas nós nem sequer ouvimos as palavras que pronunciamos. Falamos uma miserável linguagem de palavras não assumidas. Olhamo-nos na cara e não nos vemos.

As imagens não são janelas que dão para outro mundo, são objeto do nosso mundo.

Viktor Sklovski
Literatura e Cinema, 1923

O mar.

Esse mar é uma espécie de eternidade. Quando eu era criança, ele golpeava e golpeava. mas também já golpeava quando meu avô era criança, quando era criança o avô do meu avô. Uma presença móvel, porém sem vida. Uma presença de ondas escuras, insensíveis. Testemunha da história, testemunha inútil porque não sabe nada da história. E se o mar fosse Deus? Também uma testemunha insensível. Uma presença móvel, porém sem vida.

Do livro “A Trégua“, de Mario Benedetti.

A vida, segundo Mario Benedetti

O tempo passa. Às vezes penso que teria que andar de pressa, aproveitar o máximo possível estes anos que me restam. Hoje em dia, qualquer um pode me dizer, depois de escrutinar minhas rugas: “Ora, mas você ainda é um homem jovem”. Ainda. Quantos anos me restam desse “ainda”? Penso nisso e me aflijo, tenho a angustiante sensação de que a vida está me escapando, como se minhas veias tivessem se aberto e eu não pudesse estancar o sangue. Porque a vida é muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que, quando pensamos nessa palavra Vida, quando dizemos, por exemplo, que “nos apegamos à vida”, estamos fazendo com que seja assimilada por outra palavra mais concreta, mais atraente, mais seguramente importante: estamos fazendo que seja assimilada pelo Prazer. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e estou certo de que isso é a vida. Daí vem a aflição (…). Ainda me restam, assim espero, uns quantos anos de amizade, de saúde aceitável, de ocupações rotineiras, de expectativa diante da sorte, mas quantos me restam de prazer? (…) “Ainda” quer dizer: está no fim.

E este é o lado absurdo de nosso acordo: dissemos que levaríamos tudo com calma, que deixaríamos o tempo correr, que depois reveríamos a situação. Mas o tempo corre, deixemos ou não (…) A experiência é boa quando vem junto com o vigor; depois, quando o vigor se vai, resta apenas uma peça de museu, decorativa, cujo único valor reside em ser uma recordação daquilo que já se foi. A experiência e o vigor são simultâneos por muito pouco tempo. Estou agora nesse pouco tempo. Não se trata, porém, de uma sorte invejável.

Mario Benedetti, no livro “A Trégua“, (L&PM, pp. 73-4)

35 – A Árvore

Concede-me agora a felicidade de morrer, hoje que não tenho nem passado nem medo. – Federico Ripoll

Há um tempo perdido o vento nunca fora tão forte. Suas raízes envolviam a terra, agrupando-se juntas em um abraço de agonia. Sua consciência vegetal despertara lentamente dias antes com o silvo da ventania que já vinha longínqua e em toda a sua força natural, acalentada por uma longa vida, teve medo com o declínio repentino das próprias forças. Sabia que seria a sua última tempestade e sentiu curiosidade: de onde ela viria? O que a alimentava? O que havia visto em seu longo trajeto até aqui, neste lugar esquecido pelo mundo e pelo homem?

Havia nuvens em todo o espaço atmosférico a sua volta e elas corriam oprimidas pela força selvagem de mãos invisíveis cujo aperto era irresistível. Chocavam-se umas as outras gritando eletricidade e vertendo um desabamento intempestivo por toda a terra. Ela observava suas folhas soltando-se uma a uma e voando para longe dela como fios de cabelo feitos da mais pura prata e seus nervos comprimiam-se em conjunto para agarrar o solo como um doente ao seu colchão nos instantes de estertor. A dor que sentia não era maior do que a sua capacidade de esperar.

A água descia das encostas formando uma corrente de aço que a obrigava a se contorcer em direção contrária, usando todo o seu peso descomunal para não ser carregada. Uma a uma, as raízes mais profundas iam cedendo vindo dar a luz natimortas. Aves adejavam até o mais recôndito do seu interior procurando abrigo e calor, a maioria exausta diante da luta violenta contra o vento e a chuva. As pequenas criaturas encolhidas e perfiladas emitiam um canto de pavor e pesar. Ela podia sentir o peso da existência de cada uma delas assim pousadas sobre seus ombros. Era preciso esperar.

A longa duração da vida desvendara-lhe o segredo da espera. O seu tempo girava em ciclos, como o de todas as criaturas sobre a terra, mas ela aprendera que para todos os seres sencientes há uma relação subjetiva com as circunstâncias, formada pelo que está vivo em cada um. Haviam coisas ao seu redor que ela aprendera a amar, observando-as com vagar. Muitas dessas coisas ela acabou tomando-as como parte de si própria, numa tentativa de confundir-se com o mundo. Ainda muito jovem, descobriu que pensar sobre uma razão de existir lhe parecera coisa inútil, mas, com o passar do tempo, lhe era cada vez mais nítida a impressão de que a sua finalidade como criatura entre criaturas era persistir e perseverar, por algum motivo exterior a ela. A sua condição natural lhe reservara uma vida longa de tal modo que ela podia observar atentamente cada mudança que sofria com o passar dos anos, o que a contentava. Mas ela aprendeu a lastimar a breve vida do mundo que a cercava. E a amá-lo também por isso.

A cada minuto que transcorria a tempestade se intensificava. Como se os céus estivessem em total desacordo com a terra, lutavam ambos como titãs pelo direito às criaturas de cada lado e por força das circunstâncias as quais ela não era responsável, estava em meio a tudo. Fora jogada naquele ermo entre sementes, a dela a única obstinada o bastante para se fortalecer e vingar. De tal forma o fez que se tornou a mais longeva e a maior em beleza e força. Ela levara séculos para ver desabrochar em si cada pequena transformação, não havia uma única emoção que não tivesse perscrutado com a curiosidade de um pássaro que observa crescer as próprias asas. Aprendera a ficar de tal forma absorta em si mesma que para abrir os olhos passavam-se dias, no entanto, tudo o que aprendia e observava ficava guardado para sempre no mais profundo da terra na qual arrancara a própria vida, e se tornara sábia, por gratidão ao tempo vivido. Em meio à algaravia da batalha entre céus e terra ela tinha consigo um único pensamento: aguardar.

E ela esperou, durante quatro dias e cinco noites, esperou.

A dor que sentia era tal qual a de um navio açoitado por vagas incólumes em meio a vastidão do mar. Jogada de um lado para outro ela sentia o peso de si própria consumindo sua força interior. Como se puxada pelos cabelos era arrastada para baixo emudecida em meio a algazarra das ventanias. Galhos se soltavam e ao longe eram arremetidos e sua casca se partia aos poucos fazendo nascer o suplício do fim. Uma descarga elétrica alcançara o chão próximo queimando as raízes mais distantes. Pedaços de madeira eram arrancados por um machado cujo som podia ser ouvido trabalhando incansavelmente ao longo das noites e dos dias. Como nascera muda, muda sofria a conclusão de si mesma.

Na terceira noite, voltou a fechar os olhos para poupar energias e relembrar por um último instante a vida que tivera. Na quarta noite, sonhou que era um ramo levado por uma pomba em meio ao céu claro. Na quinta noite temeu estar enlouquecendo quando se deu conta que o seu corpo não era mais seu. Era a hora.

Durante quatro dias e cinco noites, esperou.

Quando enfim avistou o céu se abrir e pequenos raios de luz solar foram brincar de iluminar as gotas que caiam de suas folhas ela estava pronta para finalmente aceder. Tinha visto a luz, por um último instante, menos que breve para a sua tão longa vida. De longe pode-se ouvir o seu desabamento como se único, estrondoso e repentino trovão atravessasse o sol do meio dia. Em seu lugar, menos que repentinamente, nasciam flores sem parar, como se um veio d’água pudesse rebentar brotando para sempre.

Por Alexandre Magno da Silva

34 – O Escritor

E há sempre uma câmara secreta no subterrâneo da linguagem que se desvenda. E o segredo é dos que buscam. - Carlos Nejar


A primeira palavra, a maldita primeira palavra e depois, que suplício, a frase, uma frase inteirinha, carregada de sinceridade, força, originalidade, algo a ser dito que, talvez, dependa a vida de algumas pessoas e que se faça clarão diante de suas ruínas. Mas nada. Só restam as ruínas do escritor que se denuncia no falso papel. Diante da máquina de escrever, estas mãos e esta alma e toda a expectativa do mundo para que o que vier seja digno do amor da humanidade – porque os homens do mundo esperam ser salvos pela inventividade sonhadora do artista, é certo? Ao menos, quem sabe, um quarto de hora de seus dias! Ao menos para aqueles que raramente ainda se encantam com o mundo? E eu, que encontro dificuldades para amar a imagem no espelho, a falta de cabelos, os cães da casa ao lado que, a esta hora da noite, latem sem parar até a total desatenção do homem sentado diante da máquina de escrever carregada de fantasias e fantasmas, e até mesmo a mulher que dorme no quarto de cima, e também sonha, ficando eu, no debaixo, sempre sozinho, sem uma única palavra sobre como anda o meu trabalho, sobre o que está acontecendo com o meu trabalho, “venda os livros, ela diz, o importante é vender os livros”, e meus filhos que partiram deixando-me com a falta neste espaço que sobra e que salta por portas e janelas e me sufoca, porque eu insisto em procurar algo que produza um novo significado para salvar, quem sabe, a minha alma, ao menos, já que estou, convenhamos, desesperado? Há ainda alguém no mundo que realmente acredite em salvação? Qual o papel do artista? Embelezar o que é feio? Isso não seria mentir? Blefar? Fazer falso comércio? O seu papel seria denunciar? Talvez criar perspectivas inéditas diante da imaginação que falta! Quem sabe renovar o velho? Reinventar a vida? Como assim, reinventar a vida? Há algo cujo nascimento jamais tenho sido inventado? Quem sabe para criar tendências revolucionárias! Quem sabe fazer o que for possível para ajudar o pobre homem que carrega o tédio cotidiano com o incentivo da evasão? Talvez eu é que esteja me evadindo do mundo. Ah, eu não dou conta desta folha indiferente que insiste em fazer de conta que eu não estou exatamente aqui, diante dela, e isso há horas! Atrasado, este livro que toma o meu tempo que resta, sem ceder a esta minha sensibilidade, os personagens que não se entendem comigo e que me viram as costas, em silêncio, esta voz narrativa que se tornou melancólica e neurótica a tal ponto que precisa urgentemente de análise, a trama que me prendeu e logo trará a aranha-mãe para devorar esta cabeça sem utilidades realmente significativas. Ah, ofício! Mas eu não desisto. Eu sei que tem alguma coisa aqui, algo que quer sair e precisa de ajuda, a ajuda certa, aquela que transforma ferro em ouro, por isso este tempo todo, trancado neste quarto, o estômago roído pela fome, as costas rebentando sob o peso da cadeira. Eu sei que tem algo aqui e eu vim buscá-lo, como um peregrino segue o seu caminho místico em busca da iluminação. Eu sei que há algo aqui que se esconde como numa brincadeira em que só saí vencedor quem for descoberto por último. Eis o mistério. E eu, que não sou dado a jogos, vou abrindo portas, seguindo por ruas em que não fui criado, espiando por fechaduras e entre frestas de janelas. Eu resolvi aceitar o jogo e uma hora eu sei que vai acontecer o inesperado, eu hei de surpreender a beleza sorrindo a sua franca sabedoria, por misericórdia, dela, e por teimosia, minha. E o livro terá começado.

Por Alexandre Magno da Silva

33 – O Calor Vital

A construção da vida, no momento, está muito mais no poder de fatos que de convicções. – Walter Benjamin

Repentinamente rasgou o jornal, furioso. Tudo parecia normal até então. Pegou livros e os atirou pela janela. Jogou um vaso na televisão partindo-a em pedaços. A mulher e os filhos não o reconheciam. Nada o parava. Atirou toda a roupa janela abaixo, quarto andar. Gente vinha de todos os lados, alguns por mera curiosidade, outros para carregar o que encontravam pelo caminho. “Esta merda! Esta merda desta comida de sempre!”. Espargiu condimentos, sal, açúcar, abriu pacotes e foi espalhando tudo pela cozinha. Quebrou garrafas de suas melhores bebidas. A família não tentava impedi-lo, abraçados uns aos outros, o pai havia enlouquecido? Quebrou todas as janelas do apartamento, precisava respirar, de luz, de espaço – a mente não lhe escaparia. De repente, estancou exausto, arfando, suado. Prostrou-se. A filha caçula tomou coragem e se aproximou aos passinhos, colocando as mãos sobre seus ombros, “Papai? Você está zangado?”. Ele a pegou no colo depois de longos minutos de confusão e amargura, “é o tédio, o tédio! É simplesmente impossível se livrar dele. Que tudo vá para o diabo!” Olhou a filha uma última vez e saiu rua afora para nunca mais ser visto. Fora ferido. E era fatal. Jamais voltaria a sentir qualquer coisa, a ferida sangrando, aberta, marcando o chão por onde ele fosse, cada dia mais frio, seco, duro, até perder completamente o calor vital e virar mera estátua decorativa, como há tantas por encontrar por aí, de aspecto sempre triste e olhar vazio, medonhamente enojadas.

Por Alexandre Magno da Silva

32 – Sentimental

Eu não preciso me “entender”. Que vagamente eu me sinta, já me basta. – Clarice Lispector

Eu sou sentimental, sim. Cresci ouvindo Roberto Carlos. Dei e ganhei muito beijo em meus irmãos e meus pais. Sai da cidade e viajei por tudo o que era estado. Um dia não resisti. Ouvi Roberto Carlos num inferninho e parei para tomar umas caninhas. Logo a lágrima veio descendo, sem vergonha nem licença. Choro por qualquer coisinha, sim. Porque é coisa de pai e de mãe. Eles se emocionavam com coisa pouca que no final das contas, se o senhor colocar na balança, é das maiores importâncias. Tinha amigo lá na cidade onde eu morava que me chamava de chorão e se ria até não poder mais. Só porque eu via um novilho preso numa cerca de arame e me doia de ouvir os berros do animal até tirar ele de lá ou de ver cachorro correndo com três pernas só. É porque eu acho uma judiaria, sabe? Eu sou de um tempo em que o homem mostrava a zanga, mas também as sentimentalidades do coração. E eu sou mais feliz assim. No mundo de hoje não se pode ser sentimental. Todo mundo quer ser esperto, isso sim. Ser feito de manteiga ou de açucar? Não, que não cai bem. O senhor já viu gente feita de manteiga e açucar? Não viu né? Eu sou sentimental porque sou de carne e osso. Como eu dizia, todo mundo quer ser letrado e ser esperto, levar vantagem em tudo, mas nunca vi um homem sentimental roubar um homem cheio de espertezas. Por isso o pai e a mãe fazem a falta do cão. E os irmãos, então! Mas se o senhor quiser eu canto uma do Rei pro senhor, que não me custa não. Só não repare se eu chorar da emotividade. É porque eu acho uma boniteza, sabe? E alivia o que vem com a gente. O senhor é sentimental, seu moço? Tenha vergonha não. É até uma coisa bonita, se reparar direito.

Por Alexandre Magno da Silva

31 – O Palhaço

— Olha, há um tesouro na casa ao lado. — Mas não há casa alguma aqui ao lado. — Então construiremos uma! – Louis Pauwels e Jacques Bergier

A luz se acende no meio do picadeiro. Uma cortina se abre, e um palhaço salta em frente ao público. Nada faz. Fica ali parado como se se tratasse de um boneco de brinquedo. O silêncio do público é de expectativa. De onde virá a graça naquilo tudo? Mas hoje não haverá graça nenhuma, nem humor, nem estripulias, pois o palhaço quebrou. Todos os olhares concentrados nele e ele a olhar para o vazio, pensando no que fará a seguir. Talvez não faça nada, apenas dê um sorriso, falso, talvez diga buh! para fazer as crianças rirem assustadas, talvez mais um pulo e um adeus. Resolve por uma gargalhada. Todo mundo ri. Ele olha a todos calado, sério, tristíssimo palhaço, como naquele poema do poeta da antiga Desterro, Cruz e Souza. Novo silêncio e outra gargalhada, esta cômica, de acento hilariante. O público ri mais ainda e todos riem juntos, o palhaço que quebrou também. Mas o público quer novidades, quer imaginar coisas novas, porque imaginar sozinho não pode. O palhaço, calado, pensa. Uma criança ri sozinha tentando imitar os adultos. Quer ser aceita, como todos ali presentes, com exceção do palhaço. De repente um grito. O palhaço gritou. Gritou alto, um grito lancinante, de fera abatida, de monstro que se agita. O palhaço é vaiado, muitos se assustam, velhos, adultos, crianças. Mas ele continua no centro do picadeiro. O dono do circo sem compreender nada, nem as trapezistas, os equilibristas, os gospe-fogo e os malabares. Terá enlouquecido o palhacinho do circo? Terá cansado da vida de palhaço? Abruptamente dá um salto pra frente, e outro grito, ainda maior, como quem se aquece para a grande peça. O salto, um grito e outra gargalhada, a gargalhada mais triste já vista, carregada de deboche, de zombaria. Ninguém riu. Deu pena do palhaço, “olha”, alguém disse, “vejam, ele está com o coração partido”. O rosto cheio de lágrimas, o palhaço trepado nos limites do picadeiro encarava o público. A fantasia não lhe cabe naquele dia, talvez nunca mais lhe caiba. “É, sim, vejam, ele chora!” E, como que por contágio, repentinamente, as pessoas também começam a chorar, até mesmo os homens. Choram sem saber o que está havendo, o que vai acontecer. Choram por compartilharem a mesma fantasia, todos os dias, colocar e tirar a maquiagem, a roupa de palhaços, os sapatos compridos, os truques para fazer rir. Choram um choro que vai se avolumando, tornando-se caudaloso, como um rio de sofrimento e dificuldades. Choram as recordações, as saudades, as injustiças, a fome e o medo. Ele conseguiu o efeito. E o palhaço vai se despedindo num aceno, faz uma pirueta em pleno ar e, ainda limpando as lágrimas, houve os aplausos que não param, e volta ao picadeiro para um último grito, e todos gritam juntos, e o mundo se transforma, ao menos naquele momento, naquela noite. Toda a lógica do mundo quebrada, não pelo humor, mas pela dor. O palhaço é um sucesso, e é a primeira noite que não se lamenta por isso. Não sai feliz, nem triste, nem palhaço. Sai humano.

Por Alexandre Magno da Silva

30 – O Descrente

A dúvida é o privilégio de quem viveu muito. - José Saramago

Não cria na vida após a morte. Quando morreu se viu diante de Deus a lhe perguntar, “O que faço, Eu, agora, contigo?”, no que respondeu ao Senhor, “Tu que sabes, já que eu sou invenção tua!”. “Mas me criaste um problema, José. Fostes um homem bom em vida e Eu não posso te mandar para o Inferno”. “Ora, Senhor Deus, com todo o devido respeito, podes me mandar de volta para a poltrona em que eu estava a ler, porque era das leituras mais agradáveis.” Deus o olhou contrariado, “José, tu és mortal e tua alma tem caminho próprio a fazer”. “Senhor Deus, ainda com todo o respeito, esta alma, embora cansada, realmente carece de muito pouco para se entreter, um pouco de pão e de vinho, o amor de uma mulher e os livros por ler e escrever. Porque não me mandas de volta e eu, por ter sido apresentado a você, poderei retornar em outra ocasião, com toda a pompa que é exigida a tais circunstâncias?”. “Não devias zombar do teu criador, criatura!”. “Senhor Deus, francamente, eu, garotinho largado no mundo, me fiz sozinho e aprendi a ler e a escrever, quase ao mesmo tempo em que aprendia a caminhar. Tu, com toda a certeza, tivestes afazeres de mais elevada nobreza. Depois, quanto ao homem que me fiz, foi tudo obra do acaso e do meu modo de fazer as coisas como faço.” “Se tu consideras que o acaso não me cabe num universo criado por mim, o que devo Eu pensar de ti, senão que és um tolo e que ainda não me levas a sério?” “Senhor Deus, tudo o que Lhe peço é paciência para….” E zupt. Não tardou para que José estivesse diante do Diabo que ao vê-lo não encontrou expressão mais literal, “Ora, ora, vejam só! Para quem não cria no Céu nem no Inferno, você comprou um bilhete deveras especial, José!”. Mas José só queria voltar para casa e pensava teimosamente com os seus botões, “lá vamos nós, outra vez, ó pá!”, “Senhor Mefisto, vamos aos negócios! Finalmente um bom e experiente negociador!”. E já ía novamente perdendo a paciência.

Por Alexandre Magno da Silva

29 – O Filósofo

A lucidez é o único vício que torna o homem livre: livre em um deserto. – E. M. Cioran.

Sentado em sua escrivaninha, meditabundo, o filósofo contempla o mundo das idéias como uma criança manipula um cubo mágico, procurando a combinação perfeita que deverá colocar todas as coisas no lugar, com suas cores e formas. Você pode observá-lo facilmente, embora ele não o veja, absorto em problemas de difícil resolução. Sabe que há perguntas sem respostas, mas a tentação de fazê-las o comove e dá movimento aos sabores e dissabores da razão. Vendo-o onde ele está você diria que se trata de um homem como eu ou você, mas, em verdade, o seu caso é um pouco mais complicado: o filósofo é uma espécie de homem que vive conforme diretrizes claras a respeito de uma suposta ordem que governa a realidade e o real, o verdadeiro e o falso, o certo e o errado, o perfeito e o imperfeito, a morte e a vida, a busca da verdade e a descoberta da verdade. Por isso ele se encontra onde está, faz horas, ocupado com o mapeamento de um complexo jogo de discernimentos, como um enxadrista que enfrenta um oponente que existe apenas em seus sonhos e fantasias. Ele pensa conhecer as jogadas, mas nada mais faz do que movimentar as peças e manter o perfeito funcionamento do jogo, que nunca para, que não pode parar, que jamais há de parar. O filósofo luta pela vida, contra a morte da razão, fazendo do próprio instrumento o meio e o fim. Não pode evitar, preso do modo como está em sua escrivaninha, as pernas recolhidas, o relógio martelando o desenvolvimento do pensamento com a exaustão, procurando saída para questões que criou para si próprio e que sabe de antemão que jamais serão respondidas, não por ele, nem por outro homem, não nesta vida, mesmo a mais sábia. Mas continua, simplesmente. Vai encontrar outras metáforas e desdizer o já dito ou reascender a idéia secular com uma outra expressividade, mas continuará o mesmo homem feito todos os demais, ou a beleza de um sistema pode superar a beleza da falta de mistérios? Vai contemplar a solidão de Kant e a de Spinoza, a solidão de Voltaire e a de Nietzsche e fará anotações cuidadosas em seus estudos e tudo o que descobrir valerá tanto quanto os tesouros imaginados por um gênio brincalhão. O filósofo medita, o rosto cerrado, o corpo dobrado sobre si, encantado com o puro exercício da ingenuidade e da beleza da razão. Chegará o momento em que ele há de despertar e assim que o fizer há de voltar para a mesma vida, aquecendo a água para o café, fatiando os pães e se perguntando quanto tempo ainda haverá de vida para espiar as mudanças das estações pela janela dos fundos da casa, de todas as questões imagináveis, a mais fundamental.

Por Alexandre Magno da Silva

28 – Fotografia

No final de toda liberdade, há uma sentença. – Albert Camus

Abaixado, apoiando-se com dificuldade sobre o joelho com umas das mãos, abriu a caixa de velhos pertences e se deparou com as coisas da juventude. Os joelhos doíam. Cada objeto uma memória revolvida. Segurou um livro amarelecido pela idade e de dentro dele caiu uma fotografia. Não teve coragem de tocá-la. Nela uma jovem sorria e tentava se esconder por detrás de uma árvore. Ficou olhando para o chão sem saber o que fazer até tocar a imagem com dois dedos, naquele rosto. Sentou-se. A vida voltava inteirinha, página atrás da outra. Pegou a fotografia com as duas mãos e a trouxe para bem perto. Lembrava daquele dia como se fora o anterior, apesar das décadas. Perdera a mulher fazia alguns anos, aprendera a amá-la e tiveram filhos e fizeram escolhas e riram e se aborreceram. Mas jamais esquecera do amor que ficara para trás, atrás do coração, bem escondido até mesmo de si mesmo. A outra. De repente aquela fotografia despertava a dor e a alegria, tudo junto, e confundia suas emoções naquele instante. O que faria da vida ainda? O que teria por realizar? O que fez da vida, afinal? Atravessou a casa com a fotografia nas mãos a procura da lista telefônica. Procurou por seu nome e o encontrou com ansiedades de alegria. Ficou sentado na mesa da cozinha, faria uma loucura? Teria coragem suficiente? Pegou o telefone e chamou por ela. Do outro lado da linha, uma senhora atendeu. Ele disse apenas uma única palavra: “Doralice?”, e ouvi-lo pronunciando aquele nome foi como recuperar a vida. A resposta veio como um soco no estômago: “Dorinha infelizmente faleceu na semana passada. Quem é?”. Ele ficou mudo. Em toda a vida que vivera não encontrara até então mudez mais profunda. Por uma semana a perdera. Por uma semana a falta de sorte de toda uma vida zombava ainda. Por uma semana, apenas, e teria ouvido uma última vez a voz dela. Talvez se tratasse disso, apenas ouvi-la uma última vez, o prazer da voz como um prazer antigo, descoberto apenas para si e jamais revelado. “É um velho amigo. Ela estava bem?”. “Mamãe morreu dormindo. Só reclamava da solidão e da falta de vontade para fazer as coisas. Talvez tenha desistido. Seguiu um sonho enquanto dormia e decidiu não voltar mais”. Ele olhava pela janela. Entrara num pesadelo e continuaria vivo ainda por muitos anos – a saudade dolorosa do futuro não vivido. Ela morta no sonho enquanto ele vivo no pesadelo. Segurava o rosto com as mãos, não teria o direito de chorar por ambos. Nem a fotografia sobrara, amassada sem o perceber no pungente estertor.

Por Alexandre Magno da Silva